Nos distantes anos 70, meu saudoso Tio Sebastian, cabra basco, trombonista de muitos recursos tinha a lendááááriaa ORQUESTRA DE GAFIEIRA SEBÁ GONZALES, que botava o Parque Novo Oratório pra dançar nos bailão da Associação do Parque Oratório nos sabados a noite.
Foi com o velho Tio Sebá que peguei gosto pelas musicas de chacolhar a mexiqueira...
Tio Sebá me apresentou Raul De Barros, J.T Meirelles, Miltinho e afins.
Dentre todas as coisas que meu tio prezava tinha os salseiros do selo Fania Records. O velho piraaaavaa com Willie Colon, José Feliciano, Héctor Lavoe... Cresci ouvindo essas bolachas que depois acabaria herdando.
Eis que passa o tempo...
Em uma tarde de outono dos anos 90, na Banca do meu amigo tonho ele me falou que tinha descolado uma coletânea em Cd, uma tal ae de Broasted or Fried com o finooooooooo da fusão da nova musica latina dos anos 70 e do funk americano da época. Uma coisa de rua mesmo, de quebrada, que sei la porque, hoje chamam “Boogaloo”...
?!?!
Bem que se foda. O que vale é a parada pra todo mundo ouvir e aqui rola mais uma indicacion minha, vocês tem os canais ae embaixo e o cd, novinho, lacrado, custa 12,99 reais nas lojas americanas.
O Amigo que me le aqui com menos de 40 anos não sabe o parto que era nos anos 80 e começo dos 90, para ter uma imagenzinha infimna que fosse de uma banda de hard rock lado "B" dos anos 70.
Naquela éoca era o meu amigo Jean Gantinis, dono da loja metal que me quebrava os galhos. Sei la como, ele tinha um baita acervo em VHS de uma porrada de bandas que a gente gostava e que só ouvia por lá, de sua coleção fodástica de vinis.
Daquela época, uma banda holandesa nos chamava muita atenção;
LIVING BLUES.
Quintetão porradaria de Blues e jumpin, que tinha um baita discão ao vivo que a gente até furou de tanto ouvir na Metal. Foi muito bom ver que o tal do youtube ja os tem por lá e bem...
Tem gente que diz que sente "falta dos anos 80..."
Ela me disse que "estava em busca da luz" e eu a informei que o interruptor ficava à sua esquerda...
Minha amiga falou disso comigo, durante uma visita feita por ela para me contar de sua conversão ao budismo tibetano. Gente boa a Carol. Era atriz e trabalhava para o Grupo Tapa. Conceituado grupo de teatro de São Paulo. Ela merecia. Ralou muito. Estudou e trabalhou pra caralho para chegar lá. Legal recebe-la, mesmo sendo eu totalmente avesso às visitas. Mas a Carol era diferente.
A merda era que o momento que ela escolheu para me contar tão mística decisão tomada por ela, não era dos melhores.
Já fazia um mês que havia acabado o emprego temporário que eu tinha descolado e o que entrava em contagem regressiva agora era o meu dinheiro recebido pelo último mês de trabalho. É foda; Por menor que seja o apego que você tenha pela porra da grana é simplesmente impossível você se dissociar totalmente dela. Até porque, esse apego que te falta é suprido de maneira maravilhosa por aqueles que te cercam...
Era um que lembrava da conta de telefone, outro que lembrava que a parede há muito necessitava de uma mão de tinta e mais mercado, feira, farmácia... Puta que pariu!!
Quando eu era desempregado, era feliz e não sabia... sei lá.
Talvez eu pensasse nessa estupidez toda, como uma espécie de antídoto para os duros meses que viriam pela frente. Se bem que tecnicamente eu não estava totalmente desempregado. Fiz contatos. E durante aquele tempo que trabalhei naquela agência de publicidade, conheci algumas pessoas legais. Uma delas me fez uma providencial ligação oferecendo-me trabalho em uma conhecida revista de música.
Era um artigo, quase uma pesquisa, sobre o "lado B dos anos 70". Segundo o educado carinha que me recebeu na redação na revista, tratava-se de "um estudo aprofundado de algumas bandas de hard rock que apesar de influenciarem uma porrada de bandas atuais passaram batidas por toda aquela década punk, progressiva e purpurínica". Achei até interessante a idéia.
Confesso que cheguei até a me impolgar. O que fodeu com meu ânimo foi saber na reunião de pauta, que a capa da revista seria o Samuel Rosa do Skank. A entrevista central da revista seria com a Carla Perez, cuzuda do grupo Tchan. E mais; Dez páginas seriam dedicadas a "super produção" cinematográfica FIM DOS DIAS e mais um monte de matérias coladas de outras revistas. Aí eu pensei; "No meio disso tudo, onde é que eu vou enfiar MOUNTAIN, JAMES GANG, SIR LORD BALTMORE, BABE RUTH,...?"
"No meu cu!" – pensei comigo mesmo no metrô, enquanto eu voltava para a casa. Mas como quem precisa trabalhar tem que engolir de tudo que é sapo resolvi que iria fazer o trampo e foda-se. Pois bem.
Foi durante esse meu "aprofundamento", que a Carol, toda feliz, me falou do "aprofundamento" dela. Ela se preocupando com a espiritualidade enquanto eu me "aprofundava" em THEN YEARS AFTER, PINK FAIRNES E DR. FEELGOOD... Ou seja:
Não rolou a menor comunicação entre nós. Pena. Eu adorava a Carol e bem que eu gostaria de parar o meu "aprofundamento", para ouvi-la falar do Dalai Lama, da opressão chinesa sobre o Tibet ao longo dos séculos e claro; Da considerável possibilidade de varar a noite e a Carol em uma transa onírica!! Não rolou.
Nem o clima, muito menos eu, colaboramos muito para isso. Mesmo assim a Carol ficou comigo por mais de duas horas. E quando se despediu me beijou com a boca de Marlboro deliciosamente. Grande mulher. Fiquei de ligar. E era nisso que eu estava pensando às 03:15hs da madrugada daquele dia:
"Ligo para ela ou não?" Não.
Me parecia descabida a idéia de combinar por telefone, algo que eu deixei de fazer em loco. Deixa pra lá. Outra hora a gente transa. E agora enquanto eu ouço um bom disco do THE FUGGES, descobri que às vezes na vida é melhor você priorizar as coisas a serem aprofundadas.
Tem lugares bem melhores que os livros do Sartre para você enfiar a cara, bicho.
Uma época em que as pessoas não podiam se expressar, não se tinha direitos individuais e aqueles que “ousavam” lutar contra isso, eram duramente reprimidos, com torturas, espancamentos, assasinatos e afins. Nesse cenário, havia um menino.
Um menino muito bem criado, amado e feliz no seu bairro em meio a sua gente. Pouco reclamava, embora motivos para isso não lhes faltasse. O menino, diferente da maioria dos amigos, não tinha o pai por perto. O velho dele, era um daqueles que decidiram lutar contra a tirania reinante, da forma como podia e tornou-se líder sindical quando isso não tinha nenhum glamour. A consequencia foi sua saída de casa. Mas o Pai era corajoso e logo deu um jeito de ver o menino...
Numa ação muito bem elaborada, uma vez por mês, um carro vinha até o bairro no menino, que ficava em frente ao mercado do seu Toyoda e então embarcava. Cada mês era um carro diferente. Esse tal carro o levava até o Estádio Palestra Itália, onde o Palmeiras com Dudu, Ademir Da Guia, Edu, Leivinha, César e Ney dava verdadeiros espetáculos de futebol. Alí, o menino encontrava o Pai. E para o menino tudo era a festa.
Por medidas de segurança, o Pai tinha que vir disfarçado, com um bigode, ou óculos, ou careca, ou cabeludo... O menino vibrava! Achava na candura de seus 5, 6 anos de idade que o pai era uma espécie de “Agente Secreto”, como aqueles que tinham no cinema. Era a forma que esse menino encontrava, para não pensar que no mês seguinte, poderia não ver mais o seu Pai. E o time de futebol ajudava...
Vendo então os passes de um louro, camisa 10, elegantissimo, o menino se encantava, tinha contato com a sua primeira forma de arte; Os passos daquele homem de camisa 10, era o o primeiro e mais belo dos balés da vida do menino. Tudo era alegria e então não tinha como o menino não amar aquele time. Primeiro porque o futebol deles era lindo; Segundo, porque era o único lugar onde permitiam que o menino, encontrasse seu pai. Durante 90 minutos, pai e filho tinham portanto o contato, a relação que conviccção politica, economica, social, sexual, religiosa nenhuma jamais poderia impedir! Os homens daquela época não entendiam isso. O tempo passou...
O menino cresceu e seu pai voltou para casa. Que alegria na vida do menino! O pai em casa, ensinou a ler os bons livros, ouvir os bons discos e beijar as mais belas bocas. Foi um período bom, abreviado por circunstancias que fogem ao desejo dos mortais. Em 1997, o pai do menino morreu. No dia, o rapaz que fôra menino, chorou muito. Após o enterro foi ao Palestra Itália e, vendo o seu time golear o Grémio por 5x0, sentiu um pouquinho menos triste. Chorou. Chorou num misto de alegria e tristeza mas, estava bem. O Palestra Itália era sua casa. O Palmeiras era muito mais que um clube de futebol.
Sabia que jamais acabaria esse amor entre ele e o clube de palestra itália. E assim foi no decorrer dos anos todos. Pelo Palmeiras o menino riu, chorou, xingou, amou, odiou, viveu a plenitude da existência portanto. Entendeu que isso faz parte não só do esporte mas da vida. E hoje é feliz.
Nas proximidades da chegada de mais um dia dos pais o menino-homem decidiu fuçar velhas gavetas em busca da memória do pai e então encontrou um ingresso do jogo PALMEIRAS x XV DE PIRACICABA pelo campeonato paulista de 1976. Ao lado, uma velha foto com o pai já amarelada do tempo e muita emoção. Sentindo o peito transbordando dessa mesma emoção, decidiu não ver os gols sofridos pelo time, no noticiário esportivo. Ligou o aparelho de som, ouviu Baby Huey cantar e falou alto, olhando para o ingresso e a foto:
Existe uma chance de tentar entender o porque do futebol emocionar tanto. Se você não suporta a idéia de tentar descobrir isso, através do Luan e do Tinga do meu Palmeiras, tenta com o mestre EDUARDO GALEANO e seu maravilhoso livro de Crônicas de Futebol... FUTEBOL AO SOL E A SOMBRA foi escrito 5 minutos antes do começo dos sonhos...
Pra baixar o livroo... http://www.4shared.com/file/oQOnSiuk/Eduardo_Galeano_-_Futebol_ao_s.html
Em 1984 as coisas não estavam fáceis na minha casa. Meu pai, vitimado por suas idéias políticas, marcado por ser linha de frente na grande greve do final dos anos 70 nunca mais arrumou emprego e começava ainda a se acertar e tentar dar um novo rumo para a vida da gente mas as coisas não estavam fáceis.
Com 13 para 14 anos, assistia meu pai procurando trampo e minha mãe, que havia parado de trabalhar em 1974, não se fez de rogada. Arrumou três casas em Santo André e caiu para fazer faxina como diarista e assim, passou a ajudar nas contas e diminuir um pouco da dureza. Meu velho assistia a tudo com uma grande tristeza...
Não gostava de ver sua mulher ralando daquela forma pra ajudar em casa. Não havia casado para aquilo acontecer. Minha mãe sempre fez de boa mas ele não gostava. Meu velho, homem culto, bem educado muito inteligente, sentia-se triste com tudo. Eu, posso dizer que talvez tenha faltado um bife, um melhor tempero no feijão... Mas na minha vida nunca faltou um livro pra ler, um rádio pra ouvir um som. Só que a época era de muita dificuldade.
Era começo de Outubro de 1984 e meu aniversário, dia 05 daquele mês se aproximava. Como eu já tava ligeiro da vida, já imaginava que não haveria bolo, festa e fogos para o meu aniversário. Lembro-me que no dia, passei a mão numa fita cassete, que meu primo havia gravado do AC/DC e durante o dia, passei ouvindo HIGHWAY TO HELL e dançando com minha irmã, Melissa. Para mim já tava ótimo. No entanto eu estranhei ao achar uma caneta e uma folha de papel ao lado das minhas coisas que eu não havia levado até lá. Enfim... Passou o dia. Deu então 19:30h da noite e ouvi no portão a chegada de minha mãe na labuta.
Naquele dia, minha mãe trazia uma sacola de roupas de trabalho, um pacote de pão, a carne pra eu e minha irmã jantarmos e um estranho embrulho que ela me deu assim que entrou na cozinha. Um pacote escrito “Discoteca Aldo”
“O fio, veja aí se comprei certo...”
Abri com pressa e quando me livrei do pacote estava lá... “AC/DC, disco FOR THOUSE ABOUT TO ROCK... WE SALUTE YOU”. Cara... Uma senhora, semi-alfabetizada, que nunca falou uma letra em inglês, não sabe absolutamente nada do mundo do rock, que passou o dia todo entre desinfetante, rodo, água, ferro de passar roupa... Um dia antes, pegou um papel e anotou de um pôster meu o nome do raio da banda, descambou pro centro de Santo André mesmo cansada, e me comprou um disco de presente de aniversário. Pois é...
Esse não é o melhor disco do AC/DC. Talvez não seja o meu predileto dentre o mundão maravilhoso dos três acordes mas, com certeza é o mais importante da minha vida. Devo a ele tudo que sou, tudo que sei, tudo que descobri e tudo que vou descobrir na minha vida. Aquele gesto de minha mãe, simplesmente definiu o caráter de um garoto porque ali, com a grana ganha em uma diária, minha mãe me deu um disco e me ensinou como era ter amor por alguma coisa, no caso, a música.
Portanto, hoje não vo falar de nenhum grande jogo, e nenhum outro craque. Hoje é aniversário dessa Pernambucana forte, guerreira, lutadora, que nunca me deixou andar de cabeça baixa porque segundo ela “Cabra que olha muito pra baixo vê tudo os pecado da terra...”. Na minha vida, não sei se tenho muito do que me orgulhar, do que me vangloriar e afins. Mas quero aqui afirmar da certeza que tenho. E tenho um orgulho da porra de ser o Filho De Dona Claudete...
A primeira borrachada veio com força bem no meio das costas. Dobrou-me no meio. E quando eu com certeza cairia de joelhos, tive essa queda aparada por outro que me colocou de pé pegando-me pelo colarinho e grudando-me novamente na parede, deixando-me de frente e de jeito para o seu parceiro me esmurrar primeiro no saco, depois em uma caprichada joelhada na cara que me arrebentou com o nariz e mais uns dois dentes. O sangue começou a jorrar e daí para frente eu não resisti; Apenas coloquei os braços em volta da cabeça tentando protege-la e deixei o resto do corpo todo a mercê dos canas. Apaguei com um chutão muito bem dado no fígado ou, pelo menos onde ele deveria estar e senti que o mesmo sairia pela boca. Antes eu percebi que a situação do Helinho era bem pior.
Ele reagiu. Quando o primeiro gambé tentou ir pra cima dele o Helinho parou-lhe com um poderoso direto de direita muito bem encaixado na ponta do queixo. E aquele “prestimoso” soldado não acordou mais aquela noite. Sei lá eu se ele acordou depois. O problema é que sobraram seis...
Armados e emputecidos tiveram trabalho até que um deles estourou a cabeça do Helinho com uma puta de uma coronhada que finalmente fez com que ele caísse. Depois o couro comeu feio pro lado dele; Enquanto dois deles o seguravam, outro, o mais ensandecido deles espancava-lhe os olhos, o nariz, o estomago, queixo e tudo. Ficou mais puto quando começou a se cansar de tanto dar porrada e o Helinho desferiu contra ele uma catarrada de sangue na cara. O Cana ficou doido! Pegou um cassetete e passou a descer a borracha no Helinho. Só parou quando foi contido por outros que não estavam preocupados com a saúde do Helinho; Estavam preocupados porque queriam bater também! E daquele jeito pouco sobraria para eles... E a bronca aumentava porque quanto mais eles batiam, mais o Helinho caprichava nas cuspidas...
E porque aqueles policiais nos espancavam daquele jeito?
NÃO!
Nós não roubamos ninguém. Não sonegamos imposto de renda, não fraudamos a previdência, não confiscamos nenhuma caderneta de poupança, nem tampouco estupramos, nem matamos a filha de ninguém. E se tivéssemos cometido algum desses crimes, ainda assim, nada justificaria aquela atitude animalesca por parte daqueles que recebiam os seus salários a partir do recolhimento de impostos pagos, entre outros, por mim e pelo Helinho. Então qual foi o crime?
NENHUM!
O motivo de toda aquela fúria da “respeitável” polícia paulistana deveu-se ao fato dos mesmos encontrarem eu e o Helinho em uma das centenas das bocas de fumo que infestavam Santo André e que pagavam portentosos “cafés” aos policiais de São Paulo também. Acontece que após a “geral” que eles davam na gente não conseguiram encontrar nada. Nem uma rapinha de cocaína. E eu não sei como. Pensei: “o Helinho deve ter dispensado o produto...” Mesmo assim eles farejaram por toda aquela quebrada e quando não encontraram nada mesmo, ficaram putos da vida.
Sabiam que sem o flagrante, não teriam o lucro da propina. Sem a droga então, nem um trocadinho para eles. E ao invés de conduzir-nos a um DP de Policia para sermos autuados por sei lá eu o que, que nós havíamos feito, preferiram nos jogar algemados no fundo do camburão e lavar-nos para o campo do Beira Rio, no Jardim São Roberto, onde finalmente iniciaram a barbárie. E isso não aconteceu em um porão do DOPS no meio de uma ditadura militar nos anos 70. Esse fato ocorreu em pleno 1992 numa época em que a rede globo de televisão entrava em todos os lares do Brasil enaltecendo “a liberdade de ação e expressão vivida no país que transpirava democracia”.
Enquanto um bando de moleques babacas, burros e purpurínicos matavam aula para pintar a cara de palhaços no centro da cidade achando que derrubariam um presidente que já estava no chão há meses “lutando pelo impitimenti”, do outro lado da cidade dois viciados, dependentes químicos, eram barbaramente torturados por insanos policiais sem terem feito absolutamente nada.
Liberdade...
Ainda escutei o chefe dos bárbaros dizer; “Ta bom; saímos no prejuízo mais eu duvido que esses dois vão sair daqui andando...” Olhei na cara dele que ao invés de me bater preferiu cuspir-me na cara. Aquilo me doeu mais do que qualquer outra pancada. Desmaiei. O Helinho também.
Acordamos no outro dia, moídos de pancada com sangue por todo o corpo sentindo dores descomunais e com a impressão de que a única parte do nosso corpo capaz de se mexer eram os olhos. E com eles fizemos o nosso primeiro contato. Então vi o Helinho rastejando de quatro pela terra batida do campo de futebol de várzea mais famoso do Jardim São Roberto. A duras penas conseguiu levar o seu dedo indicador até a garganta forçando um vômito, que a julgar pelos berros e gemidos também me parecia ter doído mais do que qualquer um daqueles murros que ele havia levado.
E em meio a todo aquele sangue, cerveja, pedaços de carne e terra, o Helinho conseguiu vomitar três, dos quatro saquinhos de cocaína que nós havíamos comprado. Em meio a uma dolorida tosse olhou para mim e nós conseguimos sorrir antes de cheirarmos aquela cocaína vomitada de dentro da “alma” que os cristãos tanto propagavam. Ainda falei pra ele:
“A hora que eu conseguir me levantar eu vou enfiar o dedo no seu cu pra você cagar o outro que ficou faltando, Helinho...”
Foi a melhor cocaína que nós cheiramos na vida! Pelo menos foi ela que nos ajudou a chegar até a pracinha onde fomos encontrados e levados para o Hospital municipal de Santo André. Eu cheguei com fraturas no braço, nas costelas (duas) e no nariz, além de ter perdido um dente do fundo. O Helinho que estava três vezes mais fudido do que eu e que, tinha uma suspeita de traumatismo craniano, não teve maiores seqüelas subseqüentes. Também não pegou mais nada para nós, já que falamos a verdade e isso, parecia não interessar aos policiais que fariam ocorrência de nosso caso. Passaram-se os anos.
Aquele presidente caiu. Quem pintou a cara sumiu. O Brasil ganhou mais duas copas do mundo e esta mais democrático do que nunca. Eu estou desempregado e há oito anos estou limpo de tudo quanto é tipo de drogas. Nem café eu tomo mais. Ejooei. Já o Helinho, não parou de beber, nem de fumar, nem de se drogar! Agora ele faz isso por ele e por mim... Trabalha na IBM, ganha um puta de um salarião, conseguiu finalmente montar o seu CAMARO 1967, que ficou um carro lindo e hoje me ligou pra me mandar encontra-lo na Avenida Paulista, em frente ao prédio do conjunto do Banco Nacional, para assistirmos um show da ORQUESTRA SUN-RA, que como sempre ele pagaria. Fui. E ao nos encontrar-nos ele me chamou para acompanha-lo em uma cerveja que ele queria tomar. Fazer o que...
No caminho encontramos um sujeito sofrendo para vencer, com a sua cadeira de rodas, um dos milhares de buracos das calçadas da Paulista. Quando chegamos perto levamos um susto; Vimos que o cara na cadeira era o tal tenente, chefe dos bárbaros! Aquele mesmo que disse que duvidava que nós sairíamos do arrebento andando. Imediatamente nos reconhecemos. Clima tenso! Eu e o Helinho nos olhamos e depois olhamos para o cara, que visivelmente estava assustado.
Depois demos um passo em sua direção, nos posicionamos cada um de um lado e finalmente o ajudamos a vencer o epencilho sem esperarmos pelo agradecimento.
Depois disso foi difícil controlar um estranho sentimento de satisfação que eu sentia por dentro. O Helinho me olhou e eu percebi um leve sorriso em seu rosto e mais nada foi dito.
E o que acontece com o velho rock and roll? Nada. O velho rock and roll continua o mesmo, não há nada a ser revisto com ele. O problema portanto é o tal de “novo rock and roll”.
Vivemos um momento em que tudo tem que ser “clean”, polticamente correto e previsivel, nada pode sair muito do padrão óbvio da cretinice fundamental vigente em nossos tempos. Um comodismo mental e letargico parece querer estender os tentaculos por todos as áreas de atividade social. Inevitavelmente essa dicotomia ataca o rock.
E agora toda garota quer ser a nova Diva e todo garoto quer ser o novo Serge Gainsbourg tupiniquim. Tudo é pasteurizado, tudo é limpinho, bonzinho, bem feitinho, não há na “nova” cena musical, absolutamente nada que seja pleno, intenso, sincero, viril. A preocupação da nova geração do rock é a de ser superstar do seu condominio, o ban-ban-ban da sua rodinha de cerveja as quintas, o queridinho dos almoços dominicais da familia, oras...
Todo mundo pode ser outsider no conforto do seu quarto, na sua espaçosa sala de estar. Mas há no rock uma premissa:Grandes bandas não se fazem com ótimas notas de escola, ou cursinho.
O roqueiro glamourete, culturete de boteco, enganará portanto esses grupinhos acima descritos por um tempo. Mas não permanecerá para sempre porque a história que o rock and roll cobrará sua parte mais hora, menos hora, É necesssário portanto ser menos star e mais autentico. Isso é a tônica que rege o encontro do Giallos.
Giallos nada mais é do que a afirmação do conceito, da atitude de se fazer rock and roll. Um power trio forte, de raça e puro sangue que se propõe a devolver ao rock and roll, tudo o que dele tentam tirar novamemente, como já foi tentando antes e obviamente não conseguido.
O rock nasce dos suburbios de manchester, das garagens da california, em meio a fumaça pesada, modelado pela dura paisagem de concreto do Grande ABC paulista de onde vem o Giallos. Uma Região que outrora foi grande polo industrial, hoje, epicentro de shoppings, comércios e afins de onde vem um trio que “ousa” ser autentico, cantando suas origens, raízes, rotina, dores, amores, referencias, porres, desilusões, ilusões, erros e acertos sem medo nenhum.Afinal de contas, o rock tal qual a vida, só vale se for pleno.
Giallos vem dessa forma; Por um rock mais sujo e agressivo; Mais verdadeiro e sincero; Escrachando no estabilishment bundão e acomodado, uma ótima nova-velha forma de assumir todas as referencias culturais e sociais que enchem o grande liquidificador sonoro do trio. A chegada ta perto. Logo mais todo mundo poderá constatar isso que vos falo aqui. Portanto preparem-se:
A coisa começa em uma festa na casa de minha Roberta, que há muito tempo não via. Divide seu ano hoje, em um semestre trabalhando em Milão, outro aqui em São Paulo onde segue trabalhando também, porque quem paga as contas com glamour é pavão! Gente séria geralmente costuma trabalhar ou ter mais o que fazer...
Lá pelas tantas, um sujeito levantou um assunto sobre um abaixo asinado sobre a questão do cinema Belas- Artes. Falava o engomado sob uma comoção tamanha da população em prol do cinema ser mantido e com não sei quantas mil assinaturas a favor. Então eu, que as vezes perco o chá de Dona Claudete minha mãe, para dar uns bordejos por ae, comecei a perguntar pra todo mundo o seguinte:
“Qual foi a ultima vez que você foi a um cinema?”
As respostas que ouvi:
“Ah não lembro. Mas creio que faz uns 5 anos...”
“Vixi nem sei. Porque agora é mais fácil cmprar o dvd e ver em casa. Estacionamento, segurança, sabe como é né?”
“Putz... De Shopping vale?”
Então falei:
“Quer dizer que você não vai em um cinema há 5 anos e mesmo assim é contra o fechamento de um cinema deficitário, largado, sujo, pouco frequentado... Mesmo sem ir a um cinema você aderiu a causa?”
E então fez-se o silencio sepulcral. Mernão vamo logo falar na reta...
Quem ta aqui falando é um idiota, um imbecil, um besta de 39 anos de idade que foi pela primeira vez em uma sala escura em 1977, no saudoso Cine Tangará em Santo André assisitir O TRAPALHÃO NA MINA DO REI SALOMÃO. Um completo babaca que ama cinema inadvertidamente, que não consegue largar disso de jeito nenhum e perde tempo em cinemateca, cinesesc, cineclube, e onde mais tiver míseros 5 segundos de um Murnau, de um Robert Rossen, de um Sergio Leone que me sirva. Eu sou um mendingo da sétima arte, errante vagabundo de caneca na mão implorando por um pouco de encanto em uma sala escura que não seja uma masmorra cheia de baldes de pipoca, litros de coca-cola, explosões e monstros azuis, avatares e quetais. Numa dessas vadiagens minhas fui, ha dois meses atrás, numa sessão de quarta-feira do “comovente” Cine Belas Artes.
Era 19:30 da noite e o publico pagante na sessão era, eu e mais 3 perdidos... E olha que a sessão só rolou porque nós 4 fomo la brigar com o projetor pra passar o raio do filme! Então penso (É ainda faço isso...)
A equação é simples; Se o burgues carente, solitário, bobão, filosofo-socialista-bolchevique virtual de facebook deixasse de assinar a tal lista imaginária e arrasta-se a bunda mole para ir de fato até o cinema não seria mais fácil manter a coisa funcionando??? Será possivel que é tão dificil assim de entender?
Me falaram em milhares e milhares de nomes. Uma adesão maciça! 80% de paulistanos assinando a coisa. Eu sei que tem gente que vai sofrer demais com mais um cinema fechado mas duvido que esses poucos estão “catalogados” no assistencialismo virtual que impera hoje nos corações perdidos do mundo, substituindo a auto-ajuda da vida... Esse pessoal vai seguir lutando em seus pequenos cineclubes, grupos e guerrilha atras de cinema de verdade mesmo, sem a porra do glitter cerebral classemediano besta e sem causa que nos inunda em tudo.
Eu não tenho mais saco pra isso. Não quero saber de quem é a conta, quem vai fechar, quem vai abrir o que quer que seja. Tenho certeza no entanto que o Belas Artes as traças do jeito que estava, não fará falta alguma para o cinema, “Cinema” mesmo! Veja bem:
Eu não to falando de estereótipo! To falando da coisa real, como está hoje em dia. Quem gosta de cinema não amará menos o Vischonti, nem o Truffaut por isso e quer saber??
Eu tenho mais o que fazer e o assunto deu no saco. Vou inundar minha mente de algo que não seja o Thomas Mann e chorem:
Não vou me sentir nem um pouco culpado por isso...
Quieta, fechada, aparentemente, tímida, extremamente reservada olhar distante. Parecia a última pessoa do mundo com a qual ele pudesse vir a ter alguma proximidade. Trabalhávam juntos. É verdade.
Passava oito horas do dia com ela e na moça, nada parecia chamar atenção. Era magrinha, sempre vestida com horrendas calças de lona modelo "cargo", tênis All Star e camisetas de algodão que pareciam ser de um tamanho maior que o dela. Quase não falava. Ao contrário das outras "candinhas", comadres e xepas que passavam o dia futricando e assuntando a vida alheia, ela, parecia não habitar o mesmo cosmo comum enquanto fixava o olhar na tela do computador que ela trabalhava. Acontece que o tempo foi passando.
Ela ediu o grampeador emprestado e ele que estava revisando uns textos no computador vizinho ao seu aproveitou a brecha para te pedir um cdr. E ao longo daquela tarde de trabalho, continuaram trocando e compartilhando outras ferramentas de trabalho.
Com o tempo passaram a trocar idéias. Depois, algumas piadas e mais outras histórias infames. Ele sempre fazia ela se acabar de rir quando contava seus causos. Numa dessas percebeu que ela usava um aparelho ortodôntico azul e seu sorriso se tornava peculiarmente bonito.
Foi então, chegando a reta final dos contratos de trabalho e com isso, o trabalho apertou e houve a necessidade de se fazer hora extra. E em uma alta madrugada em meio a uma porção de trabalho naquela agencia publicitária ele percebeu que ela não estava muito bem. Sensiblizado com aquela carinha triste, ele teve um rompante santo de largar o trabalho pra lá, ligar as caixas de som do pc e chama-la para conversar. Eram agora, algo próximo de... amigos. Ela havia saído da sala....
Ele então foi procura-la;Passou pela recepção, abriu a porta que dava para o terraço do prédio. Foi então que a viu pelas costas enquanto ela olhava para a bela lua cheia que fazia naquela madrugada. Fechou a porta e aproximou-se dela tocando-a no ombro. Ela se virou chorando e instintivamente o abraçou. E ele retribuiu.
E enquanto ela não terminou de me narrar toda a crise que estava rolando no casamento dela, ele não disse uma palavra. Ao término do relato ele a abraçou novamente e disse alguma coisa que não se sabe muito bem ao certo o que foi e nem importa. O fato é que depois da conversa que tiveram naquela madrugada, ela e o marido ficaram numa boa. O tempo finalmente passou. O serviço acabou. Rolou uma festa de despedida e então, finalmente ele conheceu o marido dela. Um cara bacana. Tomaram juntos um porre santo. Foi então que ela deu o telefone deles e se despediram.
E quando ele chegou em casa chapado, dormiu de roupa e tudo no primeiro sofá que tropeçou. Acordou de ressaca algumas horas depois, pegou um velho disco do Lester Young e enfiou a mão no bolso, onde encontrou o número do telefone dela, que na verdade era “Deles”.
Tirou do bolso rasgou o papel e foi tentar dormir...
Verdadeiro "Sir". Lord daqueles ingleses da era vitoriana tamanha era a sua educação.
Um belo homem. Alto, cabelos pretos, pele clara, fleuma e charme de galã do cinema italiano dos anos 70. Belo contraste. Mas não era apenas isso que chamava atenção das mulheres que o rodeavam. Na maturidade de seus 43 anos Felipe impressionava com sua cultura, refinamento, com a delicadeza de seus gestos, seu bom gosto na escolha de seus belos ternos Boss e a enorme paciência que mantinha no gerenciamento da agência bancária que trabalhava. Era corriqueiro.
Durante todo o expediente recebia cantada das clientes e com muita elegância e jogo de cintura, esquiva-se de todas elas. Cansou. Teve todas as mulheres que quis a vida inteira e quando chegou aos 40 anos decidiu se casar. Desde então se mantinha fiel e nada parecia abalar sua convicção em se manter assim. Até o dia em que o motor de seu belíssimo Mercedez estourou...
Imediatamente acionou a seguradora que enviou uma viatura para leva-lo até sua casa. No outro dia voltou para pegar o carro e a ele foi oferecido um café...
Uma morena de pele cor de canela, olhos castanhos esverdeados, coxas grossas, roliças, maravilhosamente bem torneadas e uma bunda espetacular, daquelas que param briga de transito e velório de rico, reclinou o dorso e perguntou:
"O senhor prefere açúcar ou adoçante?"
Se ela tivesse oferecido cicuta ele aceitaria...
A partir daquele dia, Felipe deixou de se preocupar tanto com as suas gravatas de seda, com os sapatos italianos, com o seu autocontrole diante de todas as situações, parou de frear os seus impulsos, começou a sorrir mais, usar menos ternos, falar uma ou duas gírias, voltou a beber cerveja depois do trabalho e chegar em casa, bem mais tarde do que o esperado. O Banco já não recebia mais dele a mesma atenção e finalmente entendeu que para ser responsável não era necessário centralizar todas as decisões. Delegou poderes e passou a dialogar mais com a sua equipe. Não perdeu a elegância, o charme nem nada. Apenas democratizou tudo que tinha de bom a todos aqueles que faziam parte de seu dia a dia.
Ficou mais simpático e acessível e até passou a tirar onda das cantadas que levava o dia inteiro. Todos se perguntavam o porque de toda essa repentina mudança e ninguém conseguia chegar a uma conclusão. Um dia, quando discutiam isso em uma pausa para o almoço do banco, foram levantadas as mais mirabolantes teses que só foram interrompidas por uma observação da copeira banco:
"Gente, vocês perceberam como o Dr. Felipe ta bebendo café? Mais de dois litros por dia!!!!"
A observação da copeira passou em branco e a discussão mirabolante continuou...
Enquanto vestia-se com um belíssimo terno Valentino, preto, ele esqueceu-se completamente do tempo e deixou o seu pensamento viajar no tempo, para uma época distante e muito especial de uma São Paulo que infelizmente não existe mais...
Os motivos pelos quais, fizeram com que a sua Tia Irina viesse morar na casa dele, saindo do casarão da Avenida Paulista onde morava o seu avô alemão, Paulinho, na inocência de seus nove anos de idade nunca entendeu muito bem. Só sabia que seu avô Sandor era um homem grande e bravo que vivia insistindo para que ele aprendesse a falar alemão. A única coisa que ele sabia é que a sua tia, embora fosse irmã de sua mãe era muito diferente dela.
Era mais nova. Tinha 26 anos e ainda não havia se casado. Por esse e mais outros motivos ela e a mãe do Paulinho viviam discutindo. O que não adiantava muito porque quase sempre ela pegava a sua maleta nécessaire e ia para a sala da casa deixando a mãe do Paulinho falando sozinha.
Sempre que chegava na sala encontrava o menino Paulinho brincando no carpete da sala com os seus carrinhos de metal. Ela então parava em frente dele, curvava-se, abaixando para dar-lhe um carinhoso beijo no rosto. Fazia isso todas as vezes que encontrava o menino e ele adorava o calor daqueles lábios tocando-lhe a face. Gostava mais ainda quando a Tia Irina limpava com o polegar a marca de batom que ela deixava em seu rosto. Ela tinha uma mão macia, lisinha e a suavidade de seu toque era incrível. Depois caminhava pela sala até o lugar onde ficava a poltrona de couro, que era o lugar preferido do pai do Paulinho. Sentava-se, abria a maleta e tirava um pote redondo, grande, de um dos vários cremes que compunham aquela maleta. Em seguida, ela enchia as mãos com o tal creme, esfregava primeiro, uma na outra e em seguida iniciava o ritual de passá-las por sobre as suas pernas, lentamente no começo e com um pouco mais de velocidade depois. Paulinho a observava durante essa atividade sem que ela o nota-se. Era uma mulher linda!
Loira, de olhos azuis, pele clara. Tinha seios fartos e firmes, bem empinados. Cintura fina, quadril largo e pernas maravilhosamente bonitas, grossas e bem torneadas. Um verdadeiro espetáculo de mulher. Mas até aí...
Não era esse um fato totalmente incomum ao Paulinho. Afinal de contas os seus avós maternos eram alemães e todas as suas três tias haviam saído assim, todas muito bonitas, inclusive a mãe do Paulinho que também era uma mulher muito bonita. Só que nenhuma delas tinha o diferencial que a sua Tia Irina tinha; A classe...
Era uma mulher extremamente elegante. Usava vestidos importados de grifes famosas como YVES SAINT LAURENT, mas preferia modelos mais justos como GIVANCHI. E esses ressaltavam ainda mais a bela silhueta de seu corpo que sem o menor esforço, já era escultural. Estava sempre maquiada e todos os dias freqüentava um salão de beleza, onde lavava, tratava e cuidava dos belos fios de ouro que pareciam os seus cabelos. De lá saía com os mais mirabolantes coques e penteados modernos armados à base de laquê. Nas ruas, tinha um andar único; Empertigado, de passadas firmes, imponentes e uma classe, uma elegância, que casavam perfeitamente com o ar de superioridade natural que ela possuía. Andava de cabeça erguida e sua personalidade forte simplesmente desprezava a presença dos outros pobres mortais comuns que ousavam caminhar ao seu lado. Que pretendiam ou achavam (coitados) que poderiam habitar o mesmo Cosmo que a sua Tia. Impossível!
A Tia Irina era uma deusa. Parecia uma daquelas divas do cinema americano. O Paulinho ficava todo orgulhoso ao perceber que todos a olhavam com admiração. Muito embora os homens a olhassem de outro jeito... Também com admiração, mas com um olhar diferente que o menino Paulinho não conseguia decifrar. E como a sua Tia nem sequer lhes dava atenção ele nem perguntava nada. Apenas algumas poucas vezes, ela respondia a esses olhares com um sorriso. Mesmo assim, seguia o caminho sempre de mãos dadas com o seu sobrinho predileto.
Sempre que ela saía à tarde, lá pelas três horas, ela levava o Pulinho com ela. Pegava o táxi na Haddock Lobo, onde moravam. Ela pedia ao taxista para dar uma volta pelo bairro do Pacaembu para só depois descer no centro da cidade. Andavam pelas Ruas Sete de Abril, Barão de Itapetininga, até chegar a Livraria Francesa onde ela comprava a revista Vogue e um livro do Paul Verlaine para ela, um livro do Proust para a mãe do Paulinho, mais a revista Cahiers du Cinema para o pai do Paulinho que apesar de ser Juiz de Direito, amava o cinema, a música, as artes plásticas e também a literatura. Só que a sua Tia dizia que o que o seu pai gostava de ler não se encontrava ali naquela livraria:
- Ele gosta de escritores russos, Paulinho... – Explicava ao menino, que achava aqueles nomes muito complicados...
Depois caminhavam até o largo do Arouche onde a Tia Irina gostava muito de ir. Entravam em uma tabacaria e ela comprava cigarros king size franceses, bem maiores que aqueles que o seu pai fumava e saiam caminhando por aquela região cuja beleza ainda resistia ao desenfreado crescimento urbano que sofria a cidade. Faziam isso até às seis da tarde. Depois pegava o táxi e voltava para a casa trazendo as revistas, os livros e o menino... para o alívio da sua irmã e nem jantava; Ia para seu quarto e levava mais de uma hora para escolher um vestido, mais outras duas horas no banheiro e de lá, saía toda arrumada com aquele ar de diva que lhe era peculiar. Pela fresta da porta do seu quarto, de pijama, o menino assistia a cena toda:
Primeiro ela se despedia do pai do Paulinho. Em seguida, em meio a uma série de broncas e recomendações, dava um beijo no rosto da irmã que quase sempre ficava aflita após a sua saída. Então o Paulinho corria para a cama, cobria-se e fingia um sono profundo. Pouco depois, a Tia abria a porta com cuidado, andando lentamente carregando nas mãos o belíssimo Scarpin para não acordá-lo com o barulho do salto. Lentamente puxava um pouco o cobertor e com uma ternura comovente, beijava-lhe a testa seguida de um afago nos cabelos e dizia baixinho em seu ouvido:
- Durma bem, meu anjinho...
E só então, depois disso ela saía. E quando ouvia o barulho da porta do táxi, sendo fechada começava o calvário de Dona Katherine, mãe do Paulinho. Era compreensível.
Afinal de contas era o início dos anos 60. A São Paulo daquela época era extremamente provinciana, ainda atrasada e careta. E o crescimento vertical de seus primeiros arranha-céus, não ajudava os seus moradores a entender e acompanhar as outras mudanças que estavam acontecendo no mundo. Era uma época em que as mulheres ainda eram tratadas como empregadas domésticas e escravas sexuais de seus maridos e a sociedade de então, era extremamente conivente com esse estado de coisas. Certas liberdades básicas não eram admitidas por essa sociedade. Havia uma espécie de engessamento de padrões e convenções sociais e comportamentais. E convenhamos; A Tia Irina não era nem um pouco convencional...
Era uma mulher muito culta e bem educada. Como todas da família, teve uma formação cultural e intelectual de altíssimo quilate. Mas diferente das irmãs, usou a sua rica formação para ela própria, tirar as suas próprias conclusões e impressões do mundo. O que sempre causou sérios conflitos entre ela e o seu pai. O velho Sandor era um imigrante que chegou em São Paulo sem nada e em pouco mais de trinta anos, tornou-se um dos mais ricos e respeitados empresários de São Paulo. Portanto o comportamento de sua filha mais nova, não era considerado o “adequado” para uma rica herdeira e dama da alta sociedade. Ela não estava nem aí!
Freqüentava museus e teatros. Adorava Touloise-Lautrec, Bosch, Reinbraint e Dali. Conhecia as melhores montagens de Ibsen, Tchecov, Goethe, Sheakspeare e Jean Genet. Esse último se tivesse o nome proferido por alguém perto do velho Sandor, esse tal, era sumariamente expulso para bem longe... Também nunca se recusava a tomar a terminar a noite tomando um bom uísque escocês com seus amigos ou com quem quer que fosse, no Jongo Bar, na Sputinick ou em qualquer boate refinada da Rua Major Sertório no Centro de São Paulo, que era a Meca da bossa nova paulistana; Lugar onde passaram músicos que viriam a se tornar os melhores do mundo. Não se fazia de rogada. Era totalmente independente. O que era um escândalo para a época.
O marido tentava acalmá-la dizendo que a irmã era nova, solteira e bonita e que tinha mais é que se divertir mesmo. Que ficasse tranqüila, que era um ciclo natural da vida e que uma hora isso acabaria, naturalmente. Em vão; Enquanto a irmã não chegava à mãe do Paulinho se recusava a dormir. Sentava no sofá e esperava o tempo que fosse necessário, para dar-lhe uma bronca cobrando maior responsabilidade da irmã mesmo que isso não adiantasse nada; Era a irmã dela, ela a amava demais e jamais deixaria de dizer a ela o que pensava e principalmente o que sentia. Acontece que naquela madrugada ela esperou um pouco mais...
A empregada a acordou às seis e quinze da manhã. Seu Fernando, pai do menino, já havia trocado o Paulinho para levá-lo ao colégio. Ela se levantou, perguntou pela irmã e quando descobriu que ela ainda não havia retornado, entrou em pânico...
Queria ligar para Polícia, avisar o pai, falar com o secretário de segurança, procurar no IML, só que tudo ao mesmo tempo:
- CHEGA! Não vê que está assustando o menino? Procure se acalmar Katherine!
De fato. O Paulinho estava realmente assustado. Muito mais pelo fato de sua mãe estar chorando, do que pelo descontrole. Embora fosse a mãe uma mulher de muita classe e muito reservada que quase nunca alterava o tom de voz, vê-la chorando, foi o que mais o chocou. Ela parou imediatamente ao ver o menino a olhando. Trouxeram água com açúcar para ela beber e quando ela sorvia o segundo gole talvez, escutou o barulho de um festivo carro parando em frente à sua casa. Pouco depois o barulho que ouviu, foi o do trinco da porta. Jogou o copo com água na pia e partiu em direção ao corredor. Briga feia:
Quando ela encontrou a irmã chegando em casa cambaleante, com os cabelos desgrenhados, completamente bêbada, alegre e feliz, cantando um samba do Ismael Silva, enfureceu-se! Gritava e esbravejava coisas que o Paulinho não sabia o que siguinificava. Algo como, responsabilidade, caráter, ingratidão, falta de juízo... A Tia Irina nem ligava. Continuava cantando o samba feliz da vida. Depois tentou agarrar a irmã tirando-a para dançar e diante da veemente recusa trancou-se no seu quarto, ainda cantando. Deduziu-se que foi dormir:
- Pára de dar risada, Fernando! – Repreendeu o marido, que procurou ser discreto:
- Vamos filho. Senão perderemos a hora.
E o Paulinho entrou no Sinca do seu pai deixando que as duas se resolvessem. No carro o Paulinho perguntou:
- Papai, porque que a mamãe e a Titia brigam tanto?
- Porque elas se amam muito, meu filho.
- Ah bom...
E diante do sorriso do pai o menino contentou-se com a resposta. Naquele dia a impressão que ele teve foi de que a hora passou mais rápido do que de costume. Quando o táxi o trouxe de volta do colégio às duas horas da tarde ele deixou o Joel que era o jardineiro pagando o taxista e entrou correndo para a casa, em direção ao seu quarto. Pegou os seus carrinhos depois foi até a cozinha onde se encontrava a sua mãe, que estava ensinando a empregada, como devia ser o procedimento correto para limpar as taças de cristal. Foi até o seu encontro e ganhou dela o mesmo abraço caloroso e o mesmo beijo de sempre. Mas percebeu que a mãe ainda estava brava. Ele a deixou e foi para a sala. Reparou que vinha um barulho do banheiro, portanto a sua tia já estava acordada.
Quando chegou na sala, escutou a mãe esbravejando novamente contra a tia. Novamente não adiantou. Ela saiu do banheiro, Divina! Não perdia a classe nunca! Repetiu todo o ritual de sempre; Foi até a poltrona do pai do Paulinho sentou-se e começou a passar creme em suas pernas. Cansada, a sua mãe desistiu. A tia Irina continuou. E o Paulinho daquela vez abandonou os carrinhos e começou a prestar atenção no que ela fazia, com um ar de curiosidade um tanto quanto intrigado. Determinado momento, a Tia percebeu:
- Que foi Paulinho?
- Nada...
- Então porque você ta me olhando com essa cara estranha?
Ele tomou coragem e perguntou:
- Titia, a senhora passa esse negócio na perna para sarar os machucados?
- Machucados?! Que machucados Paulinho??
- É que toda vez que a mamãe e a senhora brigam, a senhora passa isso...
- Não meu anjinho... – Respondeu com um sorriso meigo – A sua mãe não seria capaz de fazer mal a uma mosca! Ela é assim meio chatinha, mas é porque a sua mamãe me ama muito e eu amo muito a ela também.
- É, o papai me falou.
- Pois então, fica sossegado que a sua mamãe jamais fará mal a que quer que seja. E isso (falou segurando o pote) é apenas um creme que a Titia usa para ficar com as pernas mais bonitas. Você quer ver como é que é?
- Quero.
- Então vem aqui.
O Paulinho abandonou definitivamente os carrinhos e foi em direção da poltrona onde a tia estava sentada, pulando em seu colo:
- Olha, você primeiro põe na mão; Depois esfrega uma na outra e passa nas pernas entendeu?
- Entendi. – Respondeu o menino com as mãozinhas todas lambuzadas com o tal creme, olhando e analisando-as de maneira estranha:
- Quer terminar de passar para a Titia? Ainda falta passar em um pé. A Titia já te ensinou e você passa, enquanto eu tiro um cochilo. O que você acha?
- Ta bom.
- Ótimo. Então puxa aquele banquinho e vem até aqui.
O Paulinho puxou. Era um daqueles descansos para apoiar os pés. Para o Paulinho era o tamanho ideal. Ele fez como orientou a Tia. Aproximou-o de suas belas pernas, sentou-se com as pernas bem fechadas e nesse momento, ele recebeu o pé da sua Tia, aconchegando-o em seu colo, bem no meio das suas pernas. Nessa hora sentiu algo estranho que ele nunca havia sentido e que não sabia direito o que era. Mas estava gostando. Iniciou a tarefa:
Primeiro, foi passando na parte de cima do pé, esparramando lentamente o creme, por toda essa parte de cima. Sua tia, provavelmente de ressaca e cansada cochilou e ele continuou seguindo as suas orientações; agora esparramava o creme por entre os dedos, de unhas pintadas de rosa claro, bem discreto, com muito gosto. Fez minuciosamente, dedo por dedo. Começou a sentir calafrios estranhos, porém deliciosos se espalhando por todo corpo. Uma coisa boa que o fazia intensificar ainda mais a massagem. Depois foi para a sola, esfregando com vontade, pressionando o pé da sua tia contra a sua barriga. Sentiu que era macio. Tanto quanto as mãos dela. E quando lambuzou as mãos para continuar com mais vontade ainda, a massagem na sola do pé da Tia Irina, ela que cochilava, começou a pronunciar sons estranhos:
- Ai, ui, ui, ai, ui... Pára!
- Que foi Titia? Fiz coisa errada?
- Não meu anjinho. É que isso dá cócegas...
- Aonde? Aqui?
E começou a fazer cócegas no pé da tia achando engraçado vê-la tendo crises de riso. Era uns risos altos, gostosos, que parecia prazeroso e o contagiava. Então ele continuou:
- Pára menino... Pára...
E ele dava risada e continuava.
- Se você não parar eu vou revidar... – Ameaçou o menino. Ele a desafiou:
- Pode vir.
- Vem cá menino...
Nessa hora, ela o imprensou com as pernas derrubando-lhe do banquinho, fazendo com que o menino caísse perto dos seus pés. Depois ela enfiou o seu pé por baixo da camisa do menino e começou a esfregá-lo com a sola de seu pé, massageando-lhe a barriga apertando-a com os dedos em fricção. Isso causou uma enorme e desenfreada crise de risos no Paulinho:
- Ta vendo? Ta vendo como é bom fazer cócegas nos outros? Toma mais!
E a Tia Irina afundava os dedos com vontade na barriga do menino. Esfregava freneticamente a sua barriga em movimentos rápidos e alternados. Não sentia apenas cócegas. Aquele pé macio, massageando-lhe a barriga, causava-lhe uns calafrios gostosos, uma sensação muito boa que ele estava adorando. Ria a altos brados e isso chamou a atenção da sua mãe:
- Mas o que é isso Paulinho?!
- Nada Katherine. Ele só está brincando... – Explicou a tia do menino.
- Pois que vá brincar lá fora, no quintal. Deixe a sua tia em paz.
Ele foi. Mas depois daquele dia, descobriu que os pés da sua Tia eram brinquedos muito mais agradáveis que os seus carrinhos. Recusava-se peremptoriamente a deixá-los; Na hora do jantar entrava debaixo da mesa e favorecido pelas cumpridas toalhas de linho que enfeitavam a mesa, aproveitava a ocasião para se esfregar nas canelas da tia que sempre aceitava a brincadeira, retrucando-o com mimos feitos pelos pés em todo o seu corpo, divertindo-se até a hora em que a sua mãe o descobria, quase sempre devido as suas incontroláveis crises de riso; No meio da noite passou a acordar para correr até o quarto da tia. Quando chegava lá, dormia agarrado aos seus pés; Durante a exibição da novela das seis, o Paulinho sentava-se no chão cedendo gentilmente o seu colo para a Tia descansar os pés...
Mesmo causando uma certa estranheza no Seu Fernando e na Dona Katherine, ambos concluíram que aquelas manias do menino não eram nada demais. Portanto não levaram a sério; “Coisa de menino. É que é filho único, não tem com quem brincar...” concluíram. E o Paulinho se esbaldou tranqüilamente até o dia em que foi avisado que teria um jantar em sua casa do qual ele não poderia participar, porque não se falariam coisas de menino. O Paulinho jantou cedo e já de pijama, teve tempo de conhecer o tal convidado do pai para o jantar.
Era jovem. Bem mais que o seu pai. Vestia-se muito bem, com um terno de lã cinza muito adequado para o frio daquela noite, camisa branca e gravata de crochê preta. Era moreno como o seu pai tinha um bigode bem aparado e os cabelos esticados para trás com gomex:
- Então esse é o herdeiro Meritíssimo?
- Me chame de Fernando, Dr. Sérgio; É sim. Esse é o Paulinho.
- Tudo bem Paulinho...
- Papai ele é o “homem do VENTO LEVOU?...”
Todos sorriram. O Dr. Sergio era bem bonito mas não era o Clarck Gable. Foi dormir, mas não por muito tempo. Quarenta minutos depois, ele se levantou e em uma manobra audaciosa conseguiu arrastar-se até debaixo da mesa. O assunto parecia ser sério demais para perceberem a sua chegada. Parecia que o pai aconselhava o jovem advogado recomendando cuidado com que esse negócio de se ligar a comunistas porque isso seria reprimido com violência... O Paulinho não tava nem aí para essa história. Nem sabia o que era. Ele só queria fazer uso de seu brinquedo. Só que daquela vez teve uma surpresa...
Enquanto seu pai falava dos tais cuidados e precauções que deveriam ser tomados para o seu amigo, percebeu que a sua Tia Irina estava usando o bico de um de seus pés para livrar-se dos sapatos de salto que usava naquela noite, sutilmente. Depois esticou o pé já despido até que seu pé conseguiu alcançar o tornozelo do amigo do seu pai e começou a roçar-lhe as meias com os dedos, para cima e para baixo. O cara afastou um pouco o pé, mas ela não desistiu; Voltou a tocar-lhe com o mesmo movimento. Agora ela esfregava-lhe o tornozelo com um pouco mais de força, arriando as meias do sujeito com os dedos e continuando com esse movimento por mais algum tempo. Intensificou. Tirou o pé de dentro da barra da calça do cara e com a parte de cima do seu pé, Tia Irina passou a acariciar-lhe à parte de trás da canela do homem.
Paulinho se irritava, mas prendia a respiração e observava tudo:
O cara não tirava mais a perna. Ela voltou a acariciar-lhe por dentro da barra da calça só que agora, subindo seu pé até os joelhos do homem. Depois subiu por fora parando bem no meio de suas pernas. Nessa hora o tal sujeito até se engasgou...
Ela continuou; depois de alguma resistência o cara finalmente abriu o meio das pernas deixando que o pezinho da Tia Irina o fizesse uma gostosa massagem bem no zíper de sua calça. Aquela era inédita para o menino; Ela esfregava pressionava, alisava com a sola deslizava os dedinhos para cima e para baixo levando o sujeito ao delírio. Tanto que ele também enfiou a mão por baixo da mesa para acariciar o pé de sua Tia também. O Paulinho não agüentou:
Movido por um sentimento de raiva, traição e decepção ele mordeu a perna de sua tia que gritou. A sua mãe ouviu:
- Eu não mandei você para o quarto dormir, moleque?
Nem adiantava falar nada. O Paulinho estava a quilômetros de distância da sua mãe e de toda aquela bronca que estava levando, mas estava bem próximo da sua Tia Irina. Ele a fulminou com um olhar de raiva e de decepção. Sentia-se traído, mas não entendia porque não conhecia aquele sentimento ainda. Na sua cabeça de menino funcionava assim; Ele tinha um brinquedo preferido e de uma hora para a outra, apareceu outro e tomou esse brinquedo dele. E o pobre do Dr. Sergio estava quase roxo de tanto constrangimento... Enquanto isso sua Tia percebeu que estava mal e olhou com tristeza e pena.
Só piorou. Quando a sua mãe o trancou no quarto, colocando-o de castigo, ele não dormiu; Passou aquela noite toda chorando baixinho...
O tempo passou.
Paulinho que tinha nove anos fez dez, onze, doze, treze, catorze anos. Crescera bastante e manteve a tradição das famílias que o geraram; Já tinha mais de um metro e oitenta. Herdou os olhos azuis da mãe, o corpanzil do avô e da família do pai que era Catalão, de Barcelona, ganhou a pele morena e os belos cabelos pretos de Seu Fernando. Era um belo adolescente. Ia bem nos estudos, manifestava interesse pela construção civil e avisou ao pai que iria fazer algo relacionado a essa área. Lia muito. Era fã de Lucacks, Max Weber, André Gide, Breton, Nietzche, e para desespero da mãe, tinha verdadeira idolatria por um tal de Burroughs e mais outros cientistas malucos que foram expulsos de Harvard; Aldous Huxley e Timoth Leary. Pegou gosto do cinema francês, mas era entusiasta de Humberto Mauro e Glauber Rocha. E graças à insistência de seu avô Sandor, aprendeu a falar além do alemão, o inglês e o francês.
Com relação a sua Tia Irina, claro que não ficou mágoa alguma. Até ficou de bico uns três dias na inocência que tinha aos nove anos. Mas os anos se passaram e tudo ficou no passado. Ele a amava demais e isso era recíproco. Também se tornou amigo do Dr. Sergio. Com ele o Paulinho travava longas e acaloradas conversas onde manifestavam o total repúdio que tinham pela ditadura militar e os seus abusos cometidos. Até o dia em que o receio do pai do Paulinho se fez presente de fato; O Dr. Sergio foi preso e barbaramente torturado... E com toda a influência e respeito que tinha o Pai do Paulinho, levaram-se três meses até que fosse conseguido um hábeas corpus, que o liberasse. Quando a sua Tia viu o estado do noivo ela não suportou; Ele estava tetraplégico!
A alegação dada no dops foi um “tombo tentando fugir...”. Ela decidiu que largaria tudo e que iria embora do Brasil. No aeroporto, pouco antes do embarque para a França, em meio a lágrimas despediu-se do sobrinho dizendo que voltaria a se dedicar a Pintura e que retornaria ao Brasil quando morresse o último dos generais. E em fevereiro de 1969 o gesto daquele aceno de sua tia empurrando o noivo na cadeira de rodas foi uma das mais doloridas de toda a sua vida...
...
– Benhê!
- ESPERA!! – Gritou para a sua esposa que lhe interrompera as lembranças.
Ele não a agüentava mais. Renata era uma garota linda, inteligente e articulada que ele conheceu quando fazia mestrado em Berlin, na Alemanha em 1977. Com o tempo rendeu-se; Agora não passava de uma pessoa fútil, convencional e vazia. Ele já não suportava mais tanta futilidade. Mas era inevitável que aparecesse os convites infames dos aduladores de plantão.
Passaram-se 30 anos e Paulinho, agora era PAULO RAFAEL KLEIN. Renomado arquiteto, de talento mundialmente reconhecido e preferido dos milionários do Brasil e do exterior. E foi com um desses estrangeiros aduladores, que a sua esposa resolveu aceitar um convite para que eles jantassem com o fulano e a sua esposa, no Fasano sem consultá-lo. Aquela mesma conversa fiada, aquela burrice, aquele papo furado de “sou seu fã...”, ausência total de conteúdo. NÃO! Dessa vez, não!
Ele saiu de seu closet feito um raio e passou pela mulher arrancando a gravata e procurando as chaves do seu carro:
- Aonde você vai Paulo?!
- Aonde a vida é útil, Renata.
- Não... Você não vai fazer isso comigo!
- Não. Com você eu não vou fazer nada, vou fazer COMIGO! Por mim.
- Paulo se você sair pode ser que você não me encontre aqui quando voltar e você vai se arrepender amargamente...
- Talvez Renata (finalmente achou as chaves do carro). Ao perceber o que eu fiz nos últimos 22 anos de minha vida pode até ser que eu tenha algum tipo de arrependimento. Mas eu prefiro ficar com as lembranças boas...
- VOCÊ NÃO VAI ME ENCONTRAR AQUI, PAULO!
- Faça o que quiser Renata. Cansei de te dizer o que você deve fazer.
Bateu a porta e saiu. Quando o elevador da sua mansão no Morumbi chegou até o estacionamento ele entrou no seu BMW novo, zerinho, de última geração e dirigiu até a AVENIDA Angélica, no bairro de Higienópolis onde ficava o loft de sua tia Irina. Ela quase cumpriu a promessa feita no aeroporto; quando voltou ao Brasil em 1990 faltava só o Figueiredo para ir para o inferno. Dedicou-se de fato a Pintura. Tanto que agora era uma renomada artista plástica muito conceituada na Europa e agora, também no Brasil. Depois que seu marido morreu em 1984 decidiu que ficaria sozinha em sua residência/ateliê. O “Paulo” tocou a campainha e ela o atendeu à porta:
- Oi meu anjinho! Entra...
Ele entrou e a abraçou dando-lhe um beijo em seguida. Era um homem de mais de dois metros de altura que quase a “engoliu” com os braços. Ela perguntou:
- Cadê os meninos?
Ele tinha um casal de filhos; Um garoto de 21 anos e uma menina de 18:
- O Sandor foi para a casa de Ubatuba e a Catarina inventou de ir para Barcelona com aquele punk que ela inventou que agora é seu namorado, para conhecer a “família paterna...”
- E a Renata?
Ele não respondeu. Ficou cabisbaixo depois andou até o lugar onde estavam os quadros que seriam expostos na próxima vernissage de sua Tia e começou a observá-los sem atenção. Ela notou:
- Eu sempre te disse que o problema que deveria ter a sua atenção não era a vida da Catarina, Paulinho (ela jamais deixou de chamá-lo assim). Você e a sua esposa precisam conversar...
- Tia... Eu não vim até aqui para falar disso!
- Ta. Tudo bem, me desculpe. O que eu posso fazer para te ajudar então, filho?
- Deixa eu massagear os seus pés, Tia?
Eles se olharam por alguns segundos. Depois sorriram e ela fez um afago em seu rosto e então respondeu: