28 de jan de 2008

CARAVAGGIO

"Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é: que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais."
Como eu não vou gostar de um homem desses?? Sei um pouco de artes plásticas. Bem pouco mesmo. Mas sei o suficiente para ter esse italiano louco como um dos grandes no mundo das artes. E que louco era Caravaggio. Essa frase por exemplo, ele disse em um dos milhares de julgamentos ao qual foi submetido ao longo de sua vida. Vira e mexe, se metia em duelos, furava um, matava outro e como todo bom filho da puta, quando a casa caía, recorria aos amigos influentes para livra-lo da cana. Assim vivia o cara. Dessa forma ele amava sua Roma.
A cidade o atraíra pelos grandes mecenas, pelo fausto da corte papal, pelo passado artístico. Mas não demorou muito para ele começar a cuspir nas estátuas clássicas e declarar que elas não tinham nada para ensinar-lhe. Não lhe interessava mais a Roma sepultada pelos séculos, que o Renascimento tentou ressuscitar com o mito do homem heróico. Preferia a humanidade vulgar mas atual das feiras e tavernas; Vendedores de frutas, músicos ambulantes, ciganos e putas. Teve essa gente toda como modelo para introduzir um tratamento revolucionário da luz, com prisma que decompõe e geometriza os componentes de um quadro. Lição aproveitada mais tarde por um Rembrandt ou um Vermeer, e levada às últimas conseqüências pelo cubismo de Paul Cézanne. Passa, portanto, breve mas fulgurante pelos céus da pintura, como clarão que tudo ilumina antes de extinguir-se.
E tudo com ele é nebuloso. Vejamos; Sua família se desinteressa do cara e com 16 anos ele foge para Roma. Passa o diabo na Capital. Boêmio e desordeiro, tem dificuldade em adaptar-se à mediocridade dos pintores oficiais, ávidos de encontrar favores junto aos poderosos. O adolescente de cabelos ruivos passa de um atelier a outro, de um protetor a outro.
Um destes, Monsenhor Pucci, lhe dá alojamento e uma dieta exclusiva de verduras. Recebe em troca alguns quadros e o apelido de "Monsenhor Salada". E sei lá se foi por excesso de salada consumida ou pelo que foi mas, o nosso artista foi vitimado então por uma malária. Só que vida de maluco não é fácil e ainda se varando em merda pela doença, Caravaggio tem que sair para procurar emprego. Vida dura... A única coisa que apareceu foi um bico com Cavalieri Dárpino cuja pintura de imediato já detesta; grandiloqüente, meio viada, alambicada, de temas mitológicos tratados com ênfase teatral e linhas rebuscadas, como nos quadros de Carracci. A ruptura é quase imediata: proibido de pintar figuras, Caravaggio abandona o míope mecenas e freqüenta novamente a gentalha que vegeta a sombra de magníficos palácios e barrocas igrejas.Não demora muito para ele arrumar a primeira grande confusão...
O deus do vinho e das orgias - Baco para os romanos, Dioniso para os gregos, é pintado com ar de travesti ou de gueixa japonesa, o corpo molemente inclinado, a oferecer uma taça e seus encantos de hermafrodita. É o conflito aberto e radical com os cânones artísticos da época, e também a divisão inconciliável entre admiradores e inimigos.Para dar uma acalmada na coisa, decide tirar um tempo no Egito mas, vagabundo é vagabundo em qualquer lugar e por lá, deu um jeito de desencadear essa tempestade que não se amainou por toda a sua vida...
Aproveitou a encomenda do Cardeal Francesco Maria Del Monte, para uma livre interpretação dos já manjados temas sacro.Sem apelar a um realismo excessivo, poetizando sua visão do homem e da natureza, Caravaggio faz uma pequena concessão ao gosto clássico: coloca um jovem semidespido ornado de asas que lhe conferem o aspecto de anjo musicista. São José lhe ergue a partitura, enquanto a Virgem - tão diferente das Virgens de Rafael - embala o Menino Jesus num gesto trivial. A luz que jorra sobre as faces e sobre os panos já antecipa a descoberta de Cézanne: a cor de um objeto determinada pela fusão da cor que lhe é própria com o raio de luz que nele incide. Porém Caravaggio tem da luz não só um conceito colorista, herdado dos venezianos de que era discípulo seu primeiro mestre em Milão, como também um conceito nitidamente plástico. Suas figuras destacam-se pelo ritmo dos gestos, pelo relevo quase físico das formas.
Os elementos acessórios do quadro - flores, regato, mochila, folhas - são reproduzidos com a minúcia reveladora de um amor panteísta a cada ente da natureza.Em Jovem Mordido por um Lagarto, a mesma atenta observação dos reflexos da luz sobre a água contida num vaso de flores casa-se a uma precoce e realista caracterização pessoal do personagem, que externa o espanto, a dor, o arrebatamento que o próprio pintor conhece diariamente.
Finalmente seu trabalho passa a ser reconhecido e os amigos dão um jeito de ajuda-lo nisso. Pelas mãos do amigo e protetor Del Monte, passa a freqüentar ambientes cultos e refinados. Mas a paciência de Caravaggio para tanta viadagem era pouca e então não se fazia de rogado em abandonar uma recepção aristocrática para confraternizar com a ralé que se reunia nas 1 022 tavernas que assolavam Roma. Comia bem, pagava barato, fumava feito uma chaminé e discutia ruidosamente até alta madrugada.
Passa um grande período tranqüilo. Em 1601, depois de mais uma reconciliação com seus ofensores, Caravaggio parece em paz. Não se irrita quando uma obra para a Igreja de Santa Maria Del Popolo é recusada, juntamente com outra, que reproduz o martírio de São Pedro, crucificado de cabeça para baixo. A primeira das recusadas, a Conversão de São Paulo,representa outra revolução na iconografia religiosa. "Onde está o santo?" - indagavam os maus entendedores -Aqui só se vê um cavalo!" Católicada burra da porra... Escapava-lhes tanto a simbologia do momento - quando São Paulo, o homem, caiu ao chão ofuscado pela visão de Jesus, na estrada de Damasco - como também a expressiva beleza transcendente que brota do vago foco de luz vindo de cima, a banhar o ventre do cavalo e inundar de claridade o rosto do santo. Colocando o centro do afresco no chão, Caravaggio documenta a insignificância do homem perante a divindade.A Crucifixão de São Pedro é toda em diagonais agudas que se entrechocam, simbolizando o conflito da brutalidade com a pureza (Tão vendo? Perto do Caravaggio eu sou uma moça!!). A colocação destacada, em primeiro plano, do traseiro de um dos algozes mereceu a acusação de vulgaridade. Na Deposição de Cristo, acentuam-se os elementos popularescos. A figura de Maria Cléofas, na extrema direita, que abre os braços num gesto incomum em Caravaggio, é considerada por críticos autorizados como um adendo posterior e anônimo.
Era o satanás, o Italiano! E assim continuou arrancando os cabelos do Vaticano, bebendo todas, pintando muito e gastando com tudo que é puta. Mas a trajetória de Caravaggio aproxima-se do fim. Em Roma, corroído de dívidas, recusa a oferta do PríncipeDoria Pamphili para decorar uma parte de seu palácio, hoje sede da embaixada brasileira na Itália. Insiste em pintar "quadros verdadeiros", certo de encontrar compradores e assim melhorar de situação.
Para acabar de fuder ele inventou de matar um certo nobre Tommasoni, durante um jogo de pallacorda, antepassado do tênis. É o último dia do mês de maio de 1606.Ferido ele próprio, e protegido pela família dos Colonna, escapa para Nápoles, onde muitos admiradores o acolhem. Ali pinta As Sete Obras de Misericórdia, ilustração dos atos de bondade enumerados no Evangelho (dar de beber aos sedentos, consolar os aflitos, etc.), que influi no desenvolvimento da pintura napolitana, e bem reflete o momento psicológico do autor: adensam-se as sombras, acentua-se o clima dramático.Enquanto em Roma seu perdão é pleiteado, ele se dirige à ilha de Malta, onde recebe a Cruz de Malta outorgada pelo grão-mestre da Ordem, Alof de Vignacourt, de quem executa dois retratos, além de uma Degolação de São João Batista. Mas, fora de controle, revida a ofensa de um nobre maltês e é encarcerado pelo severo regime militar ali vigente. Ajudado por amigos - crê-se que entre eles o próprio Vignacourt -, galga os muros da prisão e embarca à noite para a Sicília. Pressente a vingança no seu encalço. Muda de cidade seguidamente: de Siracusa a Messina, daí a Palermo, desta a Nápoles, no outono de 1609.
Ali, de forma melancólica, pinta sua última obra, dilacerada pelo sofrimento e pela inquietação: A Flagelação. Apenas o Cristo é plenamente iluminado, e irradia parte do brilho em tomo dos algozes, de corpos retesados num bailado grotesco e cruel.Pela segunda vez, Caravaggio fora abrigado em Nápoles por pessoas influentes, algumas ligadas à própria Ordem de Malta. Mas era tarde: os sicários do cavaleiro maltês ultrajado descobrem seu esconderijo. Perto de uma taverna, ferem-no a espada repetidas vezes. Sua força prevalece sobre os graves ferimentos. Recolhido e medicado, parece convalescer. A notícia de que o papa está prestes a conceder-lhe perdão e permitir-lhe o regresso a Roma anima-o a deixar Nápoles por via marítima. Todavia, não totalmenterecuperado, vertendo sangue, minado pela malária, ele morre numa praia deserta, no dia 18 de julho de 1610.Dias depois, junto com a barca onde tinha abandonado seus haveres, chega a Roma apenas um pregão lutuoso:"Tem-se notícia do falecimento de Michelangelo Caravaggio, pintor famoso como colorista e retratista baseado na natureza..."
Eu disse que voltaria aqui para falar de uma maneira “edificante” de morrer mas não sei se esse é o caso. Sei que Caravaggio foi importante demais por vários motivos. Um dos que mais me seduzem foi a capacidade de enfurecer muitos donos da cultura e árbitros do gosto da época. A esses, Caravaggio sempre deu de ombros.
Pintava para todos os séculos, não para o “seu” ou o “deles”.