21 de jun de 2017

ODAIR JOSÉ, O MENESTREL DOS NOVOS NEONS

                                                                                                                           Foto - Vincius Denadai

São caminhos sinuosos na boca da noite Paulistana.
As vias que ligam o abcd até o SESC Pompéia podem não ser as mais lúdicas, não estão nos cartões postais nem nas lembranças dos locais quando citam a cidade de pedra. Mas a velha São João, o Minhocão e outras quebradas tem la os seus encantos.
Bares à meia porta, outros mais lotados, luzes de neon renitentes a iluminar os caminhos, brilho vindo de copos de vidro em cima de balcões de plástico ornamentados por drinks psicodélicos.
Das portas, as modernas junkiebox de um colorido espalhafatoso tocam os sons do povo, desses que entortam ancas, que sabem das delicias das noites profanas, sons que são familiares aos que rodam por caminhos tortuosos, de vidas duras, de sofreguidão, amores viscerais e outras mumunhas que se desenrolam por novos Blues, os blues que vem do povo, que só o povo sabe. Pensava nisso tudo no caminho da pauta.
Ao lado do comparsa Felipe Bigliazzi, Neal Cassidi improvável no volante, muito mais para o Nigel possível a guiar nosso carro, escutava um velho som do Paulo Sergio, entrecortado por riffs nervosos de outros acordes do Pappos Blues, quando as luzes da Pompéia resolveram brilhar. Chegamos, finalmente chegamos.
Iríamos cobrir o show de um cara, cuja as cenas descritas são totalmente familiares. Um cara que fez parte de todas as estruturas imagináveis da musica brasileira e delas, saiu vencedor sempre.
Era a hora de ver Odair José cometer o rock pra valer no SESC Pompéia...

ANOS 70 E O BRASIL DE ODAIR JOSÉ


E qual era então Brasil que sobrou para Odair José garoto, vindo de Goiás, chegando ao Rio de Janeiro para ser cantor no auge da repressão, no chumbo da ditadura militar?

De um lado havia a nova MPB capitaneada por Chico Buarque, Caetano Veloso, uma rapaziada mais descolada e criativa como o pessoal do Clube da Esquina em Minas, Jards Macalé, Tim Maia, Elis Regina, Mutantes e do outro, vinha a turma de Odair José. O pessoal da musica do povo.

Artistas populares como Waldick Soriano, Evaldo Braga, Nelson Ned, Diana e nosso Odair José ficaram então relegados a espaços mínimos, a clubes nas periferias, no interior e nos arrabaldes do Brasil. Por la, sem ter muito tempo pra lamentar o que rolava, encaram tudo; Repressão da ditadura, preconceito, limitações todas que envolvia o oficio de seus trabalhos e triunfaram.

Odair José é parte dessa geração. Com muito talento, letras com mensagens diretas, enorme poder de comunicação frente a essas massas, rapidamente virou porta voz dessa população. Emplacou hits eternos como “Pare de Tomar a Pilula”, “A Noite Mais Linda do Mundo”, “Deixe Essa Vergonha de Lado”, “Eu vou Tirar Você Desse Lugar”, “Planta Sem Raiz”, “Cadê Você”, Odair era o Rei da Central do Brasil!


“QUEM REPETE FORMULAS NÃO FAZ ARTE, FAZ NEGÓCIO...”

Houve sim um hiato na carreira e os motivos pelo qual rolou pouco importa. Indústria fonográfica preguiçosa e sacana, Mídia arregada e elistista, recessão, Collor, enfim... Dane-se, não importa.

Estamos em 2017 e o que se viu no palco do SESC Pompéia foi um show de um homem revigorado, inovador, que teve a coragem de estabelecer uma relação orgânica à vera mesmo com sua obra, longe da coisa imaculada que sem tem com clássicos, com o que já passou.

Odair José pegou sua trajetória toda, montou uma bandaça com três guitarras, deu som, deu peso para seus hits lendários e o que se viu naquela uma hora e meia foi uma enxurrada de sons e rocks que levou a platéia a um transe atemporal, uma noite de neons dos anos 70, misturada com as tecnologias de celulares de ultima geração a tirar fotos implacáveis do que rolava ali.

Todo mundo queria ver e guardar Odair José.

Musicas novas como “Gatos e Ratos” e “Moral Imoral” vindas da turnê recente de seu novo disco recém lançado, formaram um set list vigoroso ao lado de hits dos anos 70 que ganharam uma roupa nova, cheia de riffs, peso, pegada. Voz limpa, feliz, força cênica de sempre, Odair encantou toda a platéia das mais variadas gerações que foram la para vê-lo.

“Olha rapaz, eu venho a shows do Odair desde 1971. Nunca vi um deles, num lugar bacana como esse, bem produzido, bem estruturado, com um pessoal educado e legal recebendo a gente, todos atenciosos. Por isso o Odair ta la feliz da vida, olha que lindo ele no palco...” – Me contou Dona Maria da Graça, 73 anos, no meio da platéia, felizona da vida.

La pelas tantas do show, ao tocar duas músicas da sua ópera soul de 1977, “O Filho de José e Maria, Odair para e fala com a platéia:

“Na vida nunca repeti velhas fórmulas. Quem repete fórmulas não faz arte, faz negócios...”
Essa matéria é quase uma Ode, portanto, para um cara que nunca teve medo de nada, nem de empresário, nem de mídia elitista, tampouco medo de ser feliz.

Avec Odair, avec...





2 de jun de 2017

"A 13ª EMENDA" O RACISMO NO SISTEMA PRISIONAL AMERICANO



A história desse documentário começou em um verão de 1865, quando uma Nação criou uma emenda para abolir de vez a escravidão.

Decerto que na ocasião aqueles homens imaginavam estarem se livrando de um grande problema e nem de longe imaginavam que poderiam criar outro por qualquer que fosse a filigrana jurídica. Todavia, o tempo passou e agora essa Nação se encontra envolta na nova modalidade desse mesmo problema secular...

“A 13ª Emenda”, dirigido pela ótima Ava DuVernay (A mesma diretora do brilhante filme Selma) é um documentário disponível no Netflix, que vai a fundo da discussão sobre o racismo dentro sistema prisional americano.


A Gênese do Mal

Com o fim da Guerra Civil uma nova constituição é feita e nela, uma emenda foi criada para impedir que nenhum homem seja escravizado a não ser que seja um criminoso. A partir dessa condição, como diria os Racionais, surge a brecha que o sistema queria...

Sem a escravidão a economia sulista americana vai à vala com seus campos e toda manufatura que antes era escrava e gratuita indo embora. Imediatamente o dito sistema trata de começar um grande esquema de criminalização, desumanização dos Negros recém libertados para os terem de volta como escravos a trabalhar de graça em seus campos.

Começa então uma pratica que se dissemina por séculos até ter algum incomodo novamente...



Anos 60 e os Direitos Civis

Leis de direito a voto, a luta por direitos iguais, orgulho negro, Panteras Negras... Os Estados Unidos vivia em ebulição nos anos 60 com as lutas de classes e as minorias dizendo não ao que antes era corriqueiro. Os setores conservadores, assustados passam então a fazer de tudo para destruir as forças progressistas que surgiam.

A cultura do medo é implantada pelo governo Nixon em parceria nefasta com o FBI, que incute na cabeça do Americano comum, a necessidade de combater todo e qualquer manifestante. Leis são endurecidas, o país se militariza e condena aos borbotões.

Era o começo da estruturação de algo que seria muito pior com o passar das décadas. Era a hora de encher os presídios e os bolsos...


Uma Nação Atrás das Grades. Negra, Obviamente...

Em 1970 a população carcerária americana era de 357.292 presos. No ano de 2014 ela bate os 2.390.000 milhões de americanos encarcerados. Os porquês disso são explicados magistralmente em pouco mais de uma hora e quarenta de documentário.

Uma direção firme, contando com ativistas respeitados pelo mundo todo como Angela Davis, falando sobre o tema, garantem ao espectador um passeio pela história dos EUA e sua institucionalização carcerária através de uma política penitenciara escrachadamente racista, se sustentando através de vários dispositivos:

Desde o “Lei e Ordem” do governo Nixon, passando pelo nocivo “ALEC” (Conselho Americano de Intercambio Legislativo) um grupo lobista proponente de leis absurdas que entre outros, teve como cliente “CCA” (Correction Corporations of America) um grupo privatizador de cadeias, cujo lucro com o trabalho escravo realizado em presídios desde 1983 é estratosférico e mais alguns absurdos como o Projeto de Lei do Governo Clinton que injetou bilhões e bilhões de dólares em incentivo a leis perversas, lotando o país de cadeias, atendendo justamente aos privatizadores do crime...

Uma pancada!

Enquanto de cada 17 brancos, um vai a cadeia, em cada três Negros americanos, um acaba atrás das grades. O filme explica de maneira audaz e corajosa o porquê disso tudo.

“A 13ª Emenda” é um filme necessário que vasculha o que há por trás da tal “Nação Livre”. Uma Nação que não tem como ser explicada, se abandonarmos da análise a questão racial.
Assistam. 

O netflix tai pra isso...