25 de jan de 2008

DESAFIO A CORRUPÇÃO; Uma História americana que não foi contada nem ao Bush, muito menos ao João Amazonas:


A primeira vez que vi esse filme foi pra lá de surreal. Lembro-me como se fosse hoje; Sábado, comecinho de madrugada. Eu namorava uma garota e as coisas que não iam lá muito bem, degringolaram naquela noite. Cansada de minhas “crises de iggy pop”, após uma briga de fazer inveja à Elis Regina e Boscoli, ela me botou para fora da casa dela e pela janela, jogou minha jaqueta jeans e mais dois discos do Lou Reed que sempre ficavam por lá. Era o BERLIN e METAL MACHINE. Do meio da rua eu ainda gritei:
“Joga o TRANSFORMER também!!”
Bem, ela não jogou...
Então vesti a jaqueta, enfiei os dois discos debaixo do braço e caí fora. No meio do caminho parei no posto 24 horas da minha vila e entrei na loja de conveniências que ficava lá. Não é essas coisas mas tinha um trocado no bolso. Comprei uma garrafa de uísque vagabundo e mais uns charutos duvidosos e rumei para minha casa crente, convicto de que amarraria ali uma noite de horrores, sofrendo, doido, “ébrio de amor”, lindamente cafona e ao entrar no meu quarto, iniciei bem o ritual; Arranquei o bico da garrafa para beber o uísque no beiço, peguei um disco da Nina Simone, acendi o charuto mas, sabe lá o diabo porque, antes resolvi ligar a televisão.
Caiu no canal 13 da TV Bandeirantes e percebi que subiam uns caracteres iniciais. Pude ler o nome do diretor; Robert Rossen. Aí decidi assistir a história de Eddie Felson (Que eu já conhecia de A COR DO DINHEIRO) e assim o fiz. Não dá para dizer se o uísque desceu bem ou mal mas, não sobrou uma gota na garrafa ao término do filme. Ao comentar o ocorrido com uma amiga minha ela me sapecou uma pergunta:
“Será que você se identificou com o Eddie Felso?”
Não sei. Naquela noite, talvez. Mas o filme nos remete para reflexões mais amplas que eu e minhas mancadas de amor. Novamente falarei de Lauren Smith, minha amiga americana. (Ainda bem que ela não me cobra royalites). Certa vez eu azucrinava a cabeça dela, porque o Bush disse em algum lugar que estava ouvindo Bob Dylan. Mas eu zoei muito e ela só me respondeu o seguinte:
“Marcelo, vocês não sabem nada, absolutamente nada do povo americano...”
Pensando sobre isso agora, vejo que há época sabia muito pouco mesmo. E aos que sabem tanto quanto eu sabia, o filme em questão pode ser bem útil. Afinal a história de tudo, vai muito além do filme e começa com a história da vida de um homem; Robert Rossen o diretor...
Rossen nasceu em Nova Iorque em 1916. Ainda jovem, tornou-se boxer e isso viria ser importante mais adiante em sua carreira cinematográfica. Junto com o boxe, por influência do pai judeu, conheceu o Partido Comunista e passou a ser um membro atuante, militante inflamado mesmo. Dentro do parido tomou ciência do cinema e de imediato se apaixonou por Frank Capra e Fritz Lang. Estudou teatro e estreou como roteirista em THE BODY AND BEAUTIFUL de 1936. Através desse filme, conseguiu contrato com a Warner Brothers e por lá iniciou uma trajetória gloriosa. Escreveu filmes como CRIANÇA É BOM (1940), BLUES NA NOITE (1941) e mais 10 filmes de sucesso até 1947 quando resolve estrear na direção com CORPO E ALMA.
Trata da estória de um boxer talentoso que ao decidir fazer carreria no boxe, se vê obrigado a aceitar as regras sujas dos bastidores do esporte. Boxe, era um assunto familiar para Rossen. A obrigação de aceitar o jogo dos canalhas ele aprenderia mais tarde... Nesse filme, Rossen trouxe uma atmosfera sensível e dramática, principalmente pelo excelente trabalho do fotografo mestre, James Wong Howe, que foi primeiro cara a filmar usando um patim para dar maior agilidade às cenas de dentro do ringue. A montagem de Rossen, foi lembrada pela academia e ele merecidamente ganha um Oscar por seu trabalho. Perdeu como Roteirista e John Garfield, perde como ator mas o impacto causado bastou; Era o auge.
Concorreu a melhor filme novamente com All King’s Man em 1949, filmou mais outros filmes, estava com tudo na América mas o inferno viria assolar sua vida. Chega o ano da graça de 1951 e o país assisti a efervescência do macartismo e seus asseclas. Começava à caça às bruxas e também aos comunistas.Começa a investigação de “atividades subversivas em Hollywood” e Rossen é chamado para depor. Interpelado pelos inquisidores recusa-se peremptoriamente a entregar nomes e entra para a Lista Negra. Começa a desgraceira...
Com o nome na lista, ficou impedido de trabalhar. Os produtores não podiam emprega-lo e a derrocada começava. Os filhos começam a passar fome, o álcool aumenta, a depressão o assola e sua diabete salta horrores. Em 1953 estava completamente entregue à morte. Então o marcartismo apresenta sua mais negra faceta. A chantagem. Em troca da licença para os filhos não morrerem de fome, o forçam a entregar 57 nomes para a lista. Totalmente desesperado, Rossen segue a risca à recomendação de um tal Richard Nixon e entrega todo mundo. Consegue a partir de então, além da licença, a eterna hostilidade dos companheiros de trabalho. Questão complexa demais para ele tentar entender. Então, trabalha.
Filma em 1954 o filme MAMBO. Depois consegue um relativo sucesso de público com ALEXANDRE O GRANDE (1956) e NA ILHA DO SOL (1957) mas, sua carreira nunca mais voltou a ser a mesma. Ficou quatro anos sem filmar até 1961, quando estava doente pracas e conta com o amigo James Wong e outro, Paul Newman, para filmar um roteiro antigo dele. Por intermédio de Newman, conseguiram contratar George C. Scoth, quase de graça. Schoth indicou Pipen Laurin e os estúdios pagaram Jackie Gleason. Pronto. Começaria a saga de Eddie Felso.
Tratava da estória de um jogador compulsivo que tinha um estigma pior do que aqueles que não sabem perder; Fala dos que não sabem vencer...
O inicio da trama já é visceral.
Em um salão de sinuca quando Eddie chega do Kentucky com seu sócio, uma espécie de empresário nos seus jogos, Charlie, a fim de desafiar o melhor jogador da região - Gordo Minnesota. O salão pára para o duelo dos dois jogadores que jogam por mais de 40 horas seguidas, num jogo estressante e cansativo com uma tensão presente em cada tacada. Eddie vencia o Gordo Minnesota que continuava a jogar seguindo ordens de seu sócio Bert Gordon (grande atuação de George C. Scott) que ao analisar a personalidade de Eddie concluiu que ele era um perdedor nato e orgulhoso e que era só esperar a hora de derrotá-lo, o que aconteceu ao fim das quarentas horas de jogo. Bêbado e sem dinheiro, Eddie abandona seu sócio Charlie e vagueia pela cidade sem destino.
Então encontra Sarah (Piper Laurie), uma mulher solteira, perdida, sem motivações e desamparada que tem como passatempo encher a cara na rodoviária logo cedo do dia. Depois de dois encontros casuais, eles acabam se juntando, já que possuem muitas amarguras e desencantos em comum.
A união de ambos se desenvolve bem por alguns dias, mas a falta de perspectivas, o medo do envolvimento sério e a obsessão de Eddie com a sinuca balançam seriamente o casal. Eddie, em busca de dinheiro, joga por qualquer quantia em espeluncas da cidade e após derrotar impiedosamente um adversário em partidas consecutivas mostrando todo o seu extraordinário talento é recriminado violentamente pelos jogadores do bar. Enquanto se recupera na casa de Sarah, ele é procurado por Bert para patrocinar seus jogos de sinuca. Eddie aceita embarcar numa turnê com seu novo sócio e decide levar consigo Sarah após uma emocionante conversa. Aliás, essa relação desde o inicio vive um uma turbulência insana.
Ela ama Eddie e não está nem aí para o jogo e Bert apenas visa lucro usando o talento de Eddie. O acordo dos dois é desfeito depois de um trágico acontecimento num quarto de hotel em Louisville. Modificado e com nova personalidade, Eddie Felson volta ao salão de sinuca do início para desafiar novamente o Gordo Minnesota e aposta seus últimos trocados. Disposto a mostrar que é o melhor jogador de sinuca, ele simplesmente trucida o Gordo, não lhe dá a mínima chance e realiza jogadas impensáveis e improváveis.
É contagiante a garra com que joga, a sua determinação em ganhar todas as partidas. É vibrante e estimulante ver o novo jogador que Eddie se transformou e como ele mesmo diz a Bert que acompanha o jogo : "Agora tenho algo mais que talento. Achei meu caráter num hotel de Louisville".
Eddie não é mais o perdedor nato de outrora que não preservava nem as pessoas que o amavam; agora ele é o melhor, imbatível e sabe disso. É emocionante verificar a sua descoberta. Antes de deixar o recinto, Eddie fala que o Gordo é um grande jogador de sinuca e esse agradece. Essa maravilhosa cena final é antológica, o confronto psicológico dos dois personagens memorável e o jogo de sinuca, se torna apenas o pano de fundo no jogo da vida. Inteligentemente, Rossen não corta logo a cena, talvez já prevendo um momento de reflexão do espectador.
Eu refleti há época. Descobri que os Estados Unidos tinham uma faceta que eu não conhecia, uma história oficial que ninguém falava e mais; No quanto à vida influencia na arte. Totalmente fudido da vida, Rossen passou toda a sua amargura para Eddie Felso e todos os problemas e desesperos para a relação suicida com a personagem Sarah, conseguindo uma atmosfera de perdição, de duas pessoas que, incapazes de amar sequer a si mesmos, seriam incapazes de amar qualquer outra coisa. A metáfora com a América do pós-guerra caiu sobre minha cabeça como um cataclisma e THE HUSTLER, (Título original) passou a ser então um dos maiores filmes da minha vida. E da vida de alguns também.
Newman se tornou um dos grandes nomes do cinema americano. George C. Schoth, idem. Já com DESAFIO À CORUPÇÃO, concorre a um Oscar de melhor ator coadjuvante. Naquele ano, perdeu para a soberba atuação de Maximilian Shell com JULGAMENTO DE NUREMBERG. Em 1986, Newman voltou em parceria com Martin Scorcese para a continuação do filme; A COR DO DINHEIRO, contado com Tom Cruise no elenco. Rossen?
Morre amargurado em 1966. Anos depois seu filho, Stephen Rossen lançou uma biografia contando todo drama vivido pelo pai. E agora vem a eterna questão de novo; Que importa o jeito que o cara morreu? DANE-SE! Para mim importa a obra, o trabalho, a arte de um cara que é uma puta referencia no cinema americano. Um homem que conseguiu jogar luz na América desqualificada, derrotada, que fica bem longe dos suntuosos muros da casa Branca. Aos que lerem isso, que tirem seu próprio juízo. Apenas aproveito para avisar que a Warner esta lançando uma nova cópia, restaurada em dvd. Assistam e depois volto aqui para discutirmos uma forma “edificante” de cada um morrer...

Um comentário:

Mara disse...

Sabe o que mais me impressiona? Esse teu jeito maluco de misturar, cronica com sinopse, mais conto e muita informação... Vc ao invés da formula comum do jornalismão careta, propõe um pequeno filminho, do filme que vc comenta e nos remete por exemplo, pra dentro aí do seu quarto com a bebida e tals. Muito bom, garoto! To até com gostinho do tal uisque vagaba na boca. rss

beijo e parabéns