29 de mai de 2017

TWO BROTHERS E OS UIVOS QUE CURAM A DOR; COISAS DO BLUES...

                                                                                                                    Foto- Pritui Pandin

Porque eu fui ver o duo Two Brothers, ontem no Apostrophe Bar?
Qual seria o apelo para a matéria? O interesse, a razão? Em 2017 o Jornalista ainda segue os acordes blues? Mas para que?
Jimmy Witherspoon foi um dos maiores cantores de blues do Arkansas, uma lenda. Um homem que dedicou sua vida às raízes da verdadeira cultura americana. No final dos anos 60 com o boom que o Blues teve por conta do interesse dos novos roqueiros ingleses, o Mestre deu uma entrevista para a BBC e a garota que o entrevistava perguntou porque da escolha em ser interprete, sem necessariamente ser músico, Jimmy respondeu:
“Oras, tocar blues é fácil. Qualquer um pode tocar. Mas para cantar isso... O canto vem da coisa de interpretar um Blues como se deve, algo que eleva o sujeito ao ápice da condição humana, uma coisa que eu não posso te explicar, mas que sinto. Blues não é que se explica, Blues é o que se sente”
Em tese é isso.
Blues é algo que vai além da música. É um estado supremo, divino que extrapola tudo isso. É o veneno que cura a dor. E para entender isso tem que ter sentimento.
Precisa conhecer o mundo, a vida, os guetos, os pardieiros, o amor e as dores do mesmo. Precisa saber das benesses que podem existir num vômito em um banheiro sujo na alta madrugada de um duvidoso boteco, de uma improvável cidade qualquer. Um lugar que só existe para aqueles que sabem apreciar a última gota da garrafa de uísque comprado a parcas moedas.
Um grande blues só pode ser tocado por aqueles que vivem na exceção do que é apenas convencional.
Andre Calixto e Ninho Vilela sabem disso tudo. E por isso fui vê-los cometer o blues na noite...



A Dupla

Conheci André Calixto em um tempo onde os sons eram vários.

Começo dos anos 90 éramos dois garotos descobrindo o rock, o samba, o soul, o jazz, o blues e a vida. Conversas de horas na banca do Tonho e do Chico em Santo André, cervejas e mais cervejas em voltas pelos bares da Bernardino de Campos e uma amizade de 25 anos.

O amigo hoje é músico experiente a frente de projetos dos mais variados como seus estudos em moda de viola, sambas antigos, musica oriental e a reconhecidissima Nomade Orquestra. Foi ele que me contou da ideia de formar o Two Brothers:

“Sempre falei muito com o Ninho sobre sons e parcerias e efetivamente mesmo nunca havíamos feito nada. A ideia do Duo nasceu porque eu saquei que esse formato, com Cordas e sopros não era dos mais convencionais e a possibilidade de criar a partir daí me parece algo bem bacana”

Do lado nosso, Ninho Vilela nos acompanha na conversa...

Falar que a guitarra de Ninho tem única e tão somente timbre é um erro; Sua guitarra não reproduz timbragens, mas sim, estados puros de espírito e encanto.

Ninho Vilela desde sempre é o cara do abcd que melhor entende a essência disso que é o blues. Um sentimento que escorre por cordas de aço e arame em noites apocalípticas onde as coisas da vida fogem à razão.

Não estamos falando do mundinho cartesiano, careta, de formadores de opinião apenas óbvios. Falamos de Blues. Nesse universo, tanto quanto o que o cara realiza como homem, como artista, como músico, importa a paixão. Vale a insana e deliciosa experiência de viver a vida de maneira intensa, como se todo dia fosse o último.

Dessa paixão, Ninho entende. É com ela que ele começa a cometer o som ao lado de Calixto.


A Hora que o Blues Acontece

Equinoxx de John Coltrane, temas de Little Walter, Lou Donaldson e afins foram interpretados com força, criatividade e uma boa dose de abuso em desconstruir clássicos absolutos para se encontrar as versões que mais se identificam com a cara do Duo.

Atrás da meia luz do Apostrophe Bar, num emaranhado de conversas esparsas e outras microfonias, dois músicos ousaram flertar com o que se tem mais mítico, épico e espiritual das encruzilhadas da vida e dos sons.

Acompanhados da participação pra la de especial de Luiz Galvão (Otis Trio, Nomade Orquestra), com violões, gaitas, guitarras e Sax, o Two Brothers experimentou os melhores venenos sonoros, as únicas receitas pra cortar as dores óbvias.

Foi pouco mais de uma hora e meia em que os coiotes noturnos uivaram pelos cantos e becos escuros do que se imagina como noite. O show do Two Brothers, mais que do que recomendável é uma experiência necessária que nem cobra muito de quem pensa em vivê-la.

Basta ter coração. Parem um pouco, dêem uma chance ao lirismo e o estado lúdico de uma nota da guitarra de Ninho Vilela e das lágrimas que saem como notas das gaitas de André Calixto e garanto a vocês:



As suas noites serão muito mais agradáveis...

Um comentário:

SILVIA MARIA RIBEIRO disse...

ótemo!! obrigada.