INSONÍAZI


O Ano de 2002 foi o começo da fase do perrengue em minha vida. Na época, eu gerenciava um forrózão... risca-faca-fio-chora-mãe-num-vê... Na Rua Rego Freitas, boca do lixo e “dos lixos” saltitantes, do centro de São Paulo. Trampava de quinta a domingo da 00:00 até as 06:00 da matina, ouvindo pérolas da música podre, pobre do populacho nacional. Não tinha espaço para um Gonzagão, um Jackson do Pandeiro, um Dominguinhos, mesmo para um Waldick Soriano dos bons, um Odair José, um Amadão Batista, nada.
Era a Ditadura da má qualidade.
Uma verdadeira Ode ao péssimo gosto. Viva-se o império do “Dj Maluco” e seu super-hiper-mega-hit “Arruma mala Aí”, outro que felizmente esqueço o nome agora, que cantava “Morango Do Nordeste”, uns idiotas, pobre diabos com seu classico “Papo de Jacaré”... Isso, sem falar dos cãozinho... dos teclados, das putas e da cocaína. Um inferno pleno reinante em tempos de fase limpa e caretona. Saía desse trampo, para o metrô e trem rumo ao Abc, com STOOGES socados no walkman (Na época era isso que se usava..) em pleno janeiro, quando comecei nesse trampo.
Lembro que foi no começo de 2000. Fazia uns 30 graus de calor do caramunhão ás 08 da manhã. Eu chegava em casa la pelas 09:00 horas, claro que não dava para dormir. Nos outros dias restantes da semana, era mais outro inferno. Eu vivi 12 anos de anfetaminas e Cocaína (1983 até 1995). Claro que um dia iriam me cobrar essa conta. Óbvio que um trampo que trocava o dia pela noite não era o mais adequado e creio que daí inicia-se o período da minha insonia. Eu simplesmente não dormia, de segunda a quarta, nos dias que ficava em casa. Então, sem ter o que fazer, ia escrever. Criei umas normas para isso;
Tinha que ser sempre sobre o efeito de insonia. Ainda não tinha conseguido comprar meu computador, minha máquina de escrever tava toda fudida, então, esses contos foram todos escritos em papel, cujos originais, tenho comigo até hoje.
Muito café, vinho vagabundo, charutos de péssima qualidade e cigarros Camel, regaram essas crônicas.
Deu no que podia dar.

Marcelo Mendez








A SAGA INSÔNE



O Kerouac escreveu o livro dos sonhos por pura compulsão. Compulsão  que sofrem aqueles que são geniais e que não admitem que essa genialidade deixe de se manifestar até enquanto dormem.
A mais factual prova de que você é realmente um escritor. Ou seja; A necessidade de se escrever. No meu caso, talvez seja isso, essa tal necessidade que me trouxe ao papel. Se eu fosse idiota admitiria que era esse o real motivo. Pois além de "poético", seria extremamente cômodo afirmar isso.
Acontece, que ao contrário de Kerouac, o meu lance é com a insônia e isso não é nem um pouco cômodo. Ao contrário; É uma loucura. Fruto de noites e mais noites regadas a uísque, buceta, cocaína e muita anfetamina. Muito rock and roll rolou naquelas noitadas.
Ficaram no passado.
Para o presente, restou apenas uma úlcera gigantesca e uma gastrite monstra. Além é claro, da porra da insônia. Futuro? Eis a questão:
É madrugada. Três e quarenta da matina do domingo para a segunda.
Na sexta rolou um "bota fora" do trampo provisório que eu arrumei. Bebi que nem um cavalo! Que porre!!!
No sábado fui para uma chácara cinco estrelas, para uma churrascada que marcaria a nossa despedida oficial. Travei de novo!! Bebi pra caralho, baguncei muito e se bobear eu comprometi meu futuro dentro daquela agência de publicidade. Afinal de contas, a chácara era do dono da agência e acho que não pegou muito bem, chapar o rabo de cerveja, vinho, carne e uísque e vomitar em todos os suntuosos banheiros da enorme casa que ficava dentro da chácara.
Foda-se!
O fato agora é que daqui a pouco quando o sol raiar eu vou estar desempregado, e fudido de novo. Pelo menos dessa vez, não vou ficar duro. Ainda tenho uma grana para receber e isso vai me manter um tempo. E além da morte  o futuro que me espera é esse. Mais depois eu decido o que eu vou fazer.
Se eu vou procurar um emprego, se eu vou terminar meus livros e batalhar pelos mesmos, se eu vou pedir desculpas para a Íris ou se vou continuar me acabando na putaria... Foda-se também!
Agora, enquanto eu escrevo essa merda, eu não sei se bebo água, se escuto um som do James Gang Band, se leio um livro do Zé Agrippino de Paula, ou se assisto um filme do Godard. Quem sabe Buttman ou Truffaut...
Por hora, acho que vou dar um pulo no banheiro da casa do fundo. Subitamente, fui acometido por uma puta vontade de cagar.
E se tem algo na vida que não pode ser contrariado, esse algo é meu cu!!!


ÁS 04:06HS






ÓCIO, SODOMA, AGRIPPINO E PASALIX.

 
Agora fudeu de vez.

O meu aparelho de som "foi pro saco" depois que eu fui inventar de consertar a pick up do mesmo, para ouvir um disco do Neil Young. Bicho... Eu mal sei trocar uma lâmpada! Resultado; Agora, além de não conseguir dormir eu também não tenho aparelho de som. Puta que pariu... Como as madrugadas são longas sem música!

Pelo menos essa não é das mais desagradáveis. Ao longo do dia, consegui resolver o lance do meu pagamento que vai sair daqui a dois dias. Peguei no pé do Laerte meu "técnico" de som para que ele apressa-se o conserto do meu aparelho e em uma dessas trombadas casuais reencontrei a Erica.

Erica.

Morena, linda, gostosa, maconheira convicta, fã de Led Zeppelin, enfermeira, estudante de medicina, gente fina pra caralho, dirigindo um Logus pela Av. Araucária, aonde ela me encontrou enquanto eu aguardava para atravessa-la na esquina com a Madagascar. Parou o carro, desceu, me abraçou, falou da vida dela, ouviu da minha, bebeu pra caralho junto comigo, me levou para o apartamento dela, transou muito, transei muito, metemos pra caralho e foi bom demais!

Fiquei de ligar. Peguei o telefone dela, dei o meu e prometi a ela que ligaria. Mentira...

Ela sabia que isso seria difícil. Eu não tenho esse hábito. Sou um tanto quanto arredio com relação a esse lance de proximidade, apego, enfim; rola na hora o que tem de rolar e acabou. Segue-se a vida e toca-se o bonde.
E por falar em tocar, eu não estou agüentando relar a mão no meu estômago. Que beleza...

É ótimo encher o cu de cerveja e uísque depois fumar umas "bombas", de um bom baseado e na seqüência transar com uma Afrodite como a Erica. Acontece, que eu já não tenho mais fígado nem rim, nem muito menos paciência para fazer isso todo dia. E, em quatro dias essa já era a terceira vez. Recaída? Não. Relaxamento.
Eu só estava dando um tempo para a minha cabeça. Foda... Você sai de intensos 60 dias de um trampo alucinado para, voltar à ociosidade e a absoluta falta de ter o que fazer. Quando a Erica me encontrou naquela tarde em que eu voltava do trabalho do Celso, na biblioteca pública municipal, eu já estava começando a encucar com isso. Portanto, o convite dela caiu como uma luva para mim. Pelo menos naquela hora.

Outra grande mentira...

Agora, as 05:10 da madrugada de mais uma noite passada em claro, acompanhado por uma xícara de chá de boldo e de uma vontade enorme de ouvir um som do Lucifer's Friend, essas merdas todas vêem à minha cabeça. Quer dizer; Eu só prorroguei a hora das preocupações.

Deixei tudo para justificar a minha falta de sono.
Pensar em emprego falta de grana, pressão, deprês... sei lá. A Erica me descolou uns calmantes para amenizar essa merda dessa insônia e agora eu olho para eles com uma certa condescendência.

Pensando bem, o dia já esta clareando então foda-se! Vou ler mais algumas páginas de Panamérica. Pra que?

Para passar o tempo até à hora do mercado abrir para que eu possa comprar uns cinco ou seis pãezinhos...


ÁS 05:32HS


 


PODOLATRIA COM TRIGO CRÚ



Dessa vez eu dormi.

Das duas e meia da madrugada até aproximadamente meio dia e meia do outro dia, venci a insônia. Ao acordar novamente me deparei com o espaço onde ficava o meu aparelho de som vazio. Liguei para o Laerte, meu "consertador" e ele me prometeu que me ligaria em trinta minutos para confirmar a entrega do aparelho às cinco horas da tarde. Balela. Eu esperei o dia inteiro e obviamente o puto não apareceu. Mais um dia sem rock and roll.

Não!

Eu não ia agüentar.

Passei na casa da Lisa aproximadamente às oito horas da noite, de olho nos bons discos do King Crinson que ela tinha e no maravilhoso tabule que Dona Ana, mãe dela, fazia no jantar. Também estava louco para ver aqueles lindos pezinhos tamanho 33 que a Lisa tinha...

Sou podolatra convicto!!

Quando cheguei fui bem recebido e só. A Lisa me abraçou, beijou-me a maçã do rosto, questionou o fato de meu sumiço durante os dois, três meses em que eu trabalhei, convidou-me para entrar eu comi o tabule, dei outro abraço em dona Ana, mais um em

Seu Roberto, pai dela, e depois só tomei no cu!!

Primeiro porque a gastrite me atacou e eu paguei o mico de fazer a Lisa preparar-me um chá de sei lá eu o que. Segundo. Porque a Lisa não tava numas de rock and roll. Ela me arrastou para o quarto dela, para, empolgadissíma, mostrar-me um dvd que a Teka comprou para ela em Londres; "PARTNER".

Filme do grande Bernardo Bertolucci, Partner, foi feito em 1968, para abordar os slogans, mitos, revoluções e outros delírios daquele ano mágico. Não dá para dizer que é um filme abstrato. O próprio Bertolucci não o definia assim. Ele sempre falou em uma grande contestação teatral filmada, com uma linguagem cinematográfica... oras que se foda! Eu amo o Bernardo Bertolucci mas não tava nem um pouco a fim de ver filme nenhum. Vi.

Assisti aquela porra todinha!

E por último, a Lisa assistiu ao filme com umas pantufas enormes, o que impossibilitou a visão maravilhosa daqueles deliciosos pezinhos. E não tirou as pantufas nem diante dos meus poéticos e pervertidos apelos. E ainda por cima, me deu uma puta de uma bronca cobrando-me atenção para aquele, que era um dos meus ídolos... Assisti. Despedi-me.

Foi muito bom passar àquelas horas do lado da Lisa. Mesmo sem poder chupar aqueles dedinhos lindos, rever a minha antiga amiga trotskista foi ótimo. Trotskista. Coitada...

Agora, no meio da madrugada me pego pensando no fato de ter que levantar daqui a pouco para rever o pessoal que trabalhou comigo nos últimos três meses, para receber a grana referente ao final do contrato de trabalho. Não sei o que pensar. Não estou a fim de me entregar ao sentimentalismo barato, saudade, comoção. Foi apenas trabalho... Será?

Bem; Por hora pegarei a grana, cairei fora e tocarei a vida.

Tal qual o Ornet Colleman tocava o seu saxofone de plástico...




ÀS 03:17HS.






EMANUELE BEART COM O RABO CHEIO DE CACHAÇA E MAIS OUTROS DESBUNDES MARXISTAS


Último trem. Meia-noite e cinco começo de madrugada, estação Brás.

As portas já estavam para se fechar quando ela, esbaforida, cambaleante conseguiu embarcar. Em seguida o trem partiu.
Naquele vagão além de mim que voltava do cinesesc onde eu fui para assistir a um filme do Dusan Makavejev, havia uns moleques fazendo barulho e dividindo uma garrafa de alguma coisa, além de mais alguns trabalhadores e estudantes podres de cansaço creio eu.

Ela sentou do meu lado. Talvez por estar mais perto. Em seguida começou a abrir apostilas e fazer anotações nas mesmas com um lápis preto n. º 2 enquanto eu devorava Doistoeiviski pela "centésima vez". Aí nas anotações estava escrito; "pesquisar Luckacs" e eu não agüentei.

Perguntei o que ela queria com o Luckacs e descobri que além de morena, linda, de olhos castanhos, corpinho tentador, sorriso largo e simpático ela, também queria ser socióloga. Eu respondi que queria ser menino e ela riu. Eu falei bem do Florestan Fernandes e do Max Weber e ela concordou. Disse que o The Who era do caralho e ela cantarolou "Magic Bus". Então me apresentei basco e anarquista e ela quis me bater...

E nós dois rimos dessa vez.

Quando chegamos em Santo André já não tinha ônibus para nenhum de nós irmos embora. Ela então me convidou para beber alguma coisa. Sugeri o "Enio's" na área chique da cidade e ela decidiu que nós iríamos ao bar das putas que ficava em frente ao terminal rodoviário.

Tomamos todas!!

Falamos merda, discutimos política e ela disse que como ateu eu era um fracasso. Daí eu falei que em quase tudo eu era um "fracasso" e que além do mais ela tinha cara de vendedora da Daslú e ela enfureceu-se. Levantou e foi até a maquina de música e colocou um som do Tim Maia. Eu também fui e coloquei dezoito fichas para que nós pudéssemos ouvir "Live At BBC" do Led Zeppelin inteiro. Quando o cd acabou o dia clareou e nós já estávamos chapados. Pagamos a conta.

Na calçada ela devolveu a minha jaqueta, beijou minha boca, disse que me ligava e nós nos despedimos. Óbvio que que não ligou, eu não liguei e nunca mais nos vimos.

Melhor assim...



AS 08:41HS







TREPADAS, SENTIMENTOS, GASTRITE E MICK JAGGER...


Meu estômago está um lixo. Puta indigestão do caralho! Na vitrola esta rolando um velho disco dos Rolling Stones de 1974. Lá fora do meu quarto esta chovendo e fazendo frio.

Dentro, a insônia se encarrega de arrebentar com o resto de saúde que me sobrou. E olhando para o teto começo a pensar na cagada do dia.

Transei de novo com a Silvinha.

E de novo fiz isso de olhos fechados. E de olhos fechados só pensei na Larissa. Usei para isso, o corpo o espírito e os sentimentos dessa, que há anos é uma das minhas melhores amigas. Silvinha. Anjo...

Não sei porque faço isso. Sei o que ela sente por mim e ela sabe que não tiro a Larissa da cabeça. No entanto, no caso da Silvinha eu até que vinha mantendo alguma dignidade. Evitei o quanto pude. Depois sei lá...

Foda-se! Rolou e pronto.

Acontece que é na madrugada do insone que esses pensamentos vem a mente. Eu até tentei pensar por exemplo, no embaçado do meu pagamento, em como eu vou fazer para destrocar a porra do cheque... Tentei ler um livro do John Keats, tentei ouvir Jards Macalé, insisti em rever "O Demônio das Onze Horas" do Godard, mas sabe como é:
Vida de roqueiro acaba sempre em Rolling Stones.

E Dance Sister Dance...



AS 04:11HS






ELA



Nem olhava para a cara daquela mulher.

Quieta, fechada, aparentemente, tímida, extremamente reservada olhar distante. Parecia a última pessoa do mundo com a qual eu pudesse vir a ter alguma proximidade. Trabalhávamos juntos. É verdade.

Passava oito horas daqueles meus dias com ela. E posso dizer que eu tinha a mais plena convicção que ela seria a pessoa que menos me interessaria durante aqueles três meses em que eu trabalhei provisoriamente naquela agência de publicidade. Não era o tipo físico preferido da maioria dos brasileiros.
Era magrinha. Tinha cabelos pretos, vestia-se de maneira desleixada; Sempre de calças de lona modelo "cargo", tênis All Star (eu adoro) e camisetas de algodão que pareciam ser de um tamanho maior que o dela. Quase não falava.

Ao contrário das outras "candinhas", comadres e xepas que passavam o dia futricando e assuntando a vida alheia, ela, parecia não habitar o mesmo cosmo comum enquanto fixava o olhar na tela do computador que ela trabalhava. Acontece que o tempo foi passando.

Ela me pediu o grampeador emprestado e eu que estava revisando uns textos no computador vizinho ao seu, aproveitei a brecha para te pedir um disquete limpo. E ao longo daquela tarde de trabalho, continuamos trocando e compartilhando outras ferramentas de trabalho.

Com o tempo passamos a trocar idéias. Depois, algumas piadas e mais outras histórias infames. E eu sempre a fazia se acabar de rir quando eu falava de meu passado mundano. Então eu percebi que ela usava um aparelho ortodôntico azul e seu sorriso se tornava peculiarmente bonito. Foi então, chegando a reta final dos nossos contratos de trabalho.

Com isso, o trabalho apertou.

O serviço dobrou e houve a necessidade de se fazer hora extra. Como nosso horário de trabalho era das 15:00 às 23:00hs, isso queria dizer, rasgar madrugada trabalhando. Para mim que sofria de insônia sem problemas. No entanto, para ela parecia que as coisas não iam bem. Já quase não falava. Mas naquele dia em especial parecia que estava em transe. Estava em Jupiter! Parecia haver algo errado, alguma coisa, com certeza estava lhe atormentando. E mesmo não me sentindo íntimo o suficiente, resolvi saber o que estava rolando.

Eram três e dez da madrugada quando eu e o Lord, que era nosso chefe e amigo, terminamos uma boa parte do nosso trabalho. Ligamos as caixas de som e começamos a ouvir um som do Vanila Fudge, enquanto terminávamos de arrumar a sala. E como além de mim e do Lord, apenas ela tinha ficado para fazer hora extra, não foi muito difícil perceber que ela estava ausente. Senti sua falta. Éramos agora, algo próximo de... amigos. Saí da sala.

Passei pela recepção, abri a porta que dava para o terraço do prédio. Foi então que eu a vi pelas costas enquanto ela olhava para a bela lua cheia que fazia naquela madrugada. Fechei a porta. Aproximei-me dela e quando eu a toquei no ombro ela se virou chorando e instintivamente me abraçou. Eu retribuí

E enquanto ela não terminou de me narrar toda a crise que estava rolando no casamento dela eu não disse uma palavra. Apenas avisei o Lord que nós iríamos até a loja de conveniência do posto de gasolina que ficava próximo dali para comprarmos uma garrafa de vinho. Ele ofereceu o carro. Eu recusei. Aproveitei o caminho para terminar de ouvir a história e conversar um pouco com ela.

O que ela me contou ninguém vai ficar sabendo nunca, porque assim combinamos e mesmo um escritor como eu ainda tem certos limites e respeita algumas promessas. O que falei não importa.

O fato é que depois da conversa que tivemos naquela madrugada, ela e o marido ficaram numa boa. O tempo finalmente passou. O serviço acabou. Rolou uma festa de despedida e então, finalmente conheci o marido dela. Puta cara legal. Tomamos todas e nos demos bem pracas. Ele também gostou de mim.

Foi então que ela me deu o telefone deles. Nos despedimos.

Cheguei em casa chapado e apaguei de roupa e tudo. Duas horas depois quando eu acordei fui para o meu quarto. Liguei o som, peguei um velho disco do Lester Young e deitei. Nessa hora enfiei a mão no bolso e encontrei o n. º do telefone deles que ela me deu.

Tirei do bolso rasguei o papel e fui tentar dormir...



AS 06:11HS





AMPULHETA




Acabei de assistir "Short Curts" do Robert Alltman. Porque eu estou contando isso? Oras... Porque eu não tenho porra nenhuma para contar!

Estranho? Não sei. Sinceramente, eu não sei.

Não sei porque diabos eu invento de me sentar e diante do papel em branco passar por toda essa angústia de ter que escrever alguma coisa quando eu não tenho a menor idéia do que diabos escrever. Desafio. Criar do nada. Drama principal de escritores medíocres como eu. Pior ainda, se escritor além de medíocre for insone. Não estou agüentando mais!

Na noite anterior, comecei o meu calvário lendo um livro do Gregori Corso. Larguei. Depois fui ouvir um disco do Mountain. Ouvi. Depois tentei "Jefferson Airplane"; Me irritei! Então liguei a tv no canal Boomerang e fiquei assistindo desenho até as seis e meia da manhã. Pepe Legal, pra caralho...

Nessa hora eu me levantei, joguei uma água no rosto, tomei uns goles de café, escovei a boca, coloquei a calça, enfiei o All Star no pé, peguei a velha jaqueta jeans e saí para procurar emprego.

Estava frio. Final do mês de maio. Céu cinza em Santo André. Poluição petroquímica no PNO e uma fina garoa na minha cara, não me deixava fumar o primeiro cigarro do dia. Eu ainda tinha algum dinheiro e fui de trolebus. No caminho pensei; "Coisa mais estúpida essa, de procurar emprego. Se em São Paulo tem mais de dois milhões de pessoas desempregadas, porque diabos logo eu vou achar?!"

Mas tudo bem. Eu não tinha absolutamente nada para fazer, então, vá lá... vamos a luta.

Luta?!

Disseram-me que eu não tinha capacitação suficiente para apertar um botão de uma máquina, em uma fábrica de molas e eu desisti. Andei alguns quilômetros até a rua Airó, na Bela Vista em Santo André mesmo. Fui até a casa da Suzana minha amiga, para filar um rango. Enquanto eu comia aquele maravilhoso macarrão com atum, ela me disse que tinha que voltar para o trabalho. Havia terminado a sua hora de almoço.

Disse-me para ficar à vontade, recomendou-me um vinho seco alemão que estava na geladeira, beijou-me o rosto, me abraçou forte e em silêncio e saiu. Eu aceitei a sugestão. Abri a garrafa de vinho, fui até a estante, peguei um dvd do Pat Methney para assistir e dormi. Acordei as 17:00hs. "Fudeu!", pensei; "Já era, o sono da noite..."

Feito um zumbi, peguei o trolebus de volta para a casa. Aos trancos, subi o barranco da Rua Tanger. No meio do caminho encontrei o Lidú. Dei um pega no baseado dele me despedi e fui embora para casa.

Quando cheguei em casa, minha mãe me disse que a conta de luz ia vencer, que o gás havia acabado, que a válvula do banheiro estava quebrada que o chuveiro não estava esquentando, que meu quarto estava um lixo, que meus olhos estavam vermelhos, que minhas olheiras estavam horríveis que "a puta da Erica, ligou umas cinco vezes", que eu deixei a luz do banheiro acesa antes de sair e que tinha acabado o pó de café.

Saí. Comprei o pó de café e quando eu cheguei em casa fui para o meu quarto "que estava um lixo..." (E estava mesmo.) e o que eu fiz? Bem...".

Comecei a assistir "MASH" do Robert Alltman. Porque que eu estou contando isso? Oras;

E porque eu não?!?!.



AS 03:25HS








COOL HAND LUCKIE


Ela me disse que "estava em busca da luz" e eu a informei que o interruptor ficava à sua esquerda...

Minha amiga falou disso comigo, durante uma visita feita por ela para me contar de sua conversão ao budismo tibetano. Gente boa a Carol. Era atriz e trabalhava para o Grupo Tapa. Conceituado grupo de teatro de São Paulo. Ela merecia. Ralou muito. Estudou e trabalhou pra caralho para chegar lá. Legal recebe-la, mesmo sendo eu totalmente avesso às visitas. Mas a Carol era diferente.

A merda era que o momento que ela escolheu para me contar tão mística decisão tomada por ela, não era dos melhores.

Já fazia um mês que havia acabado o emprego temporário que eu tinha descolado e o que entrava em contagem regressiva agora era o meu dinheiro recebido pelo último mês de trabalho. É foda; Por menor que seja o apego que você tenha pela porra da grana é simplesmente impossível você se dissociar totalmente dela. Até porque, esse apego que te falta é suprido de maneira maravilhosa por aqueles que te cercam...

Era um que lembrava da conta de telefone, outro que lembrava que a parede há muito necessitava de uma mão de tinta e mais mercado, feira, farmácia... Puta que pariu!!

Quando eu era desempregado, era feliz e não sabia... sei lá.

Talvez eu pensasse nessa estupidez toda, como uma espécie de antídoto para os duros meses que viriam pela frente. Se bem que tecnicamente eu não estava totalmente desempregado. Fiz contatos. E durante aquele tempo que trabalhei naquela agência de publicidade, conheci algumas pessoas legais. Uma delas me fez uma providencial ligação oferecendo-me trabalho em uma conhecida revista de música.

Era um artigo, quase uma pesquisa, sobre o "lado B dos anos 70". Segundo o educado carinha que me recebeu na redação na revista, tratava-se de "um estudo aprofundado de algumas bandas de hard rock que apesar de influenciarem uma porrada de bandas atuais passaram batidas por toda aquela década punk, progressiva e purpurínica". Achei até interessante a idéia.

Confesso que cheguei até a me impolgar. O que fodeu com meu ânimo foi saber na reunião de pauta, que a capa da revista seria o Samuel Rosa do Skank. A entrevista central da revista seria com a Carla Perez, cuzuda do grupo Tchan. E mais; Dez páginas seriam dedicadas a "super produção" cinematográfica FIM DOS DIAS e mais um monte de matérias coladas de outras revistas. Aí eu pensei; "No meio disso tudo, onde é que eu vou enfiar MOUNTAIN, JAMES GANG, SIR LORD BALTMORE, BABE RUTH,...?"

"No meu cu!" – pensei comigo mesmo no metrô, enquanto eu voltava para a casa. Mas como quem precisa trabalhar tem que engolir de tudo que é sapo resolvi que iria fazer o trampo e foda-se. Pois bem.

Foi durante esse meu "aprofundamento", que a Carol, toda feliz, me falou do "aprofundamento" dela. Ela se preocupando com a espiritualidade enquanto eu me "aprofundava" em THEN YEARS AFTER, PINK FAIRNES E DR. FEELGOOD... Ou seja:

Não rolou a menor comunicação entre nós. Pena. Eu adorava a Carol e bem que eu gostaria de parar o meu "aprofundamento", para ouvi-la falar do Dalai Lama, da opressão chinesa sobre o Tibet ao longo dos séculos e claro; Da considerável possibilidade de varar a noite e a Carol em uma transa onírica!! Não rolou.

Nem o clima, muito menos eu, colaboramos muito para isso. Mesmo assim a Carol ficou comigo por mais de duas horas. E quando se despediu me beijou com a boca de Marlboro deliciosamente. Grande mulher. Fiquei de ligar. E era nisso que eu estava pensando às 03:15hs da madrugada daquele dia:

"Ligo para ela ou não?" Não.

Me parecia descabida a idéia de combinar por telefone, algo que eu deixei de fazer em loco. Deixa pra lá. Outra hora a gente transa. E agora enquanto eu ouço um bom disco do THE FUGGES, descobri que às vezes na vida é melhor você priorizar as coisas a serem aprofundadas.

Tem lugares bem melhores que os livros do Sartre para você enfiar a cara, bicho.




AS 03:46HS







EM BUSCA DE ALGUMA NEUROSE




Eu já tentei escrever sobre o ócio algumas vezes.

Na última, me lembrei do Rubens Braga, que disse que uma boa crônica você escreve quando ao abrir a janela você se depara com uma história maravilhosa ou, quando dessa mesma janela, você não enxerga absolutamente nada. Outro dia, sem porra nenhuma para fazer eu fui então a tal janela.

De lá avistei um cara da Eletropaulo, que do portão, me chamava para cortar a minha luz por falta de pagamento! Naquele dia resolvi não escrever nada...

Hoje, passados alguns meses a coisa até que não está tão ruim. Continuo desempregado é verdade. No entanto, após alguns meses de um trabalho provisório eu tenho uns bons tocados no bolso e mais absolutamente nada para fazer.

Eis que me deparo com o ócio. E com ele tudo se torna tedioso.

Ler um livro do Keats se torna um tédio. Assistir um filme seja do Tarkowisk, do Fassbinder ou do Russ Meyer não terá a menor diferença; todos serão maçantes. Ouvir música te irrita. Assistir um jogo da Champions League, chega dar sono...

Até transar com a Érica é um saco! 

Tudo culpa da maldita falta de ter o que fazer. Os dias voltaram a ficar enormes. As tardes, com putaria ou não, são torturantes, inacabáveis. As noites repetitivas. E as madrugadas de insônia, massacrantes. Sinceramente, eu não sei o que fazer. Agora, por exemplo, eu não sei o que falar, o que escrever, sei lá...

Contar que à tarde eu fui até a biblioteca pública municipal da prefeitura ler jornal de graça? Que por lá encontrei um "amigo" meu que cismou que era cineasta e quer, por que quer, um roteiro escrito por mim para ser bancado e produzido pela escola livre de cinema de Santo André?! Narrar o encontro bisonho que tive com uma patricinha mimada e arrependida que após dar a buceta pra mim, naquela que foi a pior trepada da minha vida, encasquetou que me ama e que eu tenho que mudar de vida? Dizer que eu vou ter que começar a considerar a possibilidade de ir embora para a França, porque é mais fácil arrumar emprego lá do que aqui? Tentar explicar porque diabos eu não fui buscar os calmantes que a Érica me descolava para amenizar um pouco dessa porra dessa insônia...

Pois é. Não fui.

Agora estou aqui sem poder dormir puto da vida e ainda assim, consigo parar para lembrar de um comentário que o Tolstoi fez sobre liberdade, censura e expressão:

"... Liberdade de imprensa?! Para que? Para quem? Quem é que disse que, dizendo o que vocês querem isso vai mudar alguma coisa? Quem está interessado no livre pensamento de vocês?"

Bem pesando nisso, não sei se alguém está interessado em saber de minhas pequenas mazelas. Só sei que às vezes eu preciso contar alguma delas e... oras; Não vou explicar isso não!!!

E o Tolstoi que vá tomar no cu!



AS 03:26HS






INFAME


 
A Érica me deixou com a cabeça do pau inchada! Faz três horas que nós transamos e que ela me "estuprou". Eu bebi uma garrafa de vinho e o único gosto que sinto é o da buceta dela que eu chupei até dar "câimbra na boca".

Que buceta!!

E que vadia era a Érica. Não valia porra nenhuma e é por isso que eu a adoro; Nós dois não valemos nada. E ela é muito gostosa...

Mas agora que a putaria acabou e eu não consigo nem andar, além de estar uma tortura para mijar, eis que chega a amiga insônia para fuder com tudo. Mas hoje não vou surtar não!

Liguei a tv no canal BOOMERANG e comecei assistir uma porrada de desenhos dos anos 70. E já são 04:28hs da madrugada. Bem, agora acabou o PETER POTAMUS e vai começar o SPEED RACER. E eu não vou mais escrever porra nenhuma...

Vão todos vocês tomar no cu!!!



AS 04:31HS