01/09/2011

COOL HAND LUCKIE...


Ela me disse que "estava em busca da luz" e eu a informei que o interruptor ficava à sua esquerda...


Minha amiga falou disso comigo, durante uma visita feita por ela para me contar de sua conversão ao budismo tibetano. Gente boa a Carol. Era atriz e trabalhava para o Grupo Tapa. Conceituado grupo de teatro de São Paulo. Ela merecia. Ralou muito. Estudou e trabalhou pra caralho para chegar lá. Legal recebe-la, mesmo sendo eu totalmente avesso às visitas. Mas a Carol era diferente.


A merda era que o momento que ela escolheu para me contar tão mística decisão tomada por ela, não era dos melhores.


Já fazia um mês que havia acabado o emprego temporário que eu tinha descolado e o que entrava em contagem regressiva agora era o meu dinheiro recebido pelo último mês de trabalho. É foda; Por menor que seja o apego que você tenha pela porra da grana é simplesmente impossível você se dissociar totalmente dela. Até porque, esse apego que te falta é suprido de maneira maravilhosa por aqueles que te cercam...


Era um que lembrava da conta de telefone, outro que lembrava que a parede há muito necessitava de uma mão de tinta e mais mercado, feira, farmácia... Puta que pariu!!


Quando eu era desempregado, era feliz e não sabia... sei lá.


Talvez eu pensasse nessa estupidez toda, como uma espécie de antídoto para os duros meses que viriam pela frente. Se bem que tecnicamente eu não estava totalmente desempregado. Fiz contatos. E durante aquele tempo que trabalhei naquela agência de publicidade, conheci algumas pessoas legais. Uma delas me fez uma providencial ligação oferecendo-me trabalho em uma conhecida revista de música.


Era um artigo, quase uma pesquisa, sobre o "lado B dos anos 70". Segundo o educado carinha que me recebeu na redação na revista, tratava-se de "um estudo aprofundado de algumas bandas de hard rock que apesar de influenciarem uma porrada de bandas atuais passaram batidas por toda aquela década punk, progressiva e purpurínica". Achei até interessante a idéia.


Confesso que cheguei até a me impolgar. O que fodeu com meu ânimo foi saber na reunião de pauta, que a capa da revista seria o Samuel Rosa do Skank. A entrevista central da revista seria com a Carla Perez, cuzuda do grupo Tchan. E mais; Dez páginas seriam dedicadas a "super produção" cinematográfica FIM DOS DIAS e mais um monte de matérias coladas de outras revistas. Aí eu pensei; "No meio disso tudo, onde é que eu vou enfiar MOUNTAIN, JAMES GANG, SIR LORD BALTMORE, BABE RUTH,...?"


"No meu cu!" – pensei comigo mesmo no metrô, enquanto eu voltava para a casa. Mas como quem precisa trabalhar tem que engolir de tudo que é sapo resolvi que iria fazer o trampo e foda-se. Pois bem.


Foi durante esse meu "aprofundamento", que a Carol, toda feliz, me falou do "aprofundamento" dela. Ela se preocupando com a espiritualidade enquanto eu me "aprofundava" em THEN YEARS AFTER, PINK FAIRNES E DR. FEELGOOD... Ou seja:


Não rolou a menor comunicação entre nós. Pena. Eu adorava a Carol e bem que eu gostaria de parar o meu "aprofundamento", para ouvi-la falar do Dalai Lama, da opressão chinesa sobre o Tibet ao longo dos séculos e claro; Da considerável possibilidade de varar a noite e a Carol em uma transa onírica!! Não rolou.


Nem o clima, muito menos eu, colaboramos muito para isso. Mesmo assim a Carol ficou comigo por mais de duas horas. E quando se despediu me beijou com a boca de Marlboro deliciosamente. Grande mulher. Fiquei de ligar. E era nisso que eu estava pensando às 03:15hs da madrugada daquele dia:


"Ligo para ela ou não?" Não.

Me parecia descabida a idéia de combinar por telefone, algo que eu deixei de fazer em loco. Deixa pra lá. Outra hora a gente transa. E agora enquanto eu ouço um bom disco do THE FUGGES, descobri que às vezes na vida é melhor você priorizar as coisas a serem aprofundadas.


Tem lugares bem melhores que os livros do Sartre para você enfiar a cara, bicho.

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