12/08/2011

SOBRE PAIS, MENINOS E FUTEBOL...


Houve uma vez a década de 70...


Uma época em que as pessoas não podiam se expressar, não se tinha direitos individuais e aqueles que “ousavam” lutar contra isso, eram duramente reprimidos, com torturas, espancamentos, assasinatos e afins. Nesse cenário, havia um menino.


Um menino muito bem criado, amado e feliz no seu bairro em meio a sua gente. Pouco reclamava, embora motivos para isso não lhes faltasse. O menino, diferente da maioria dos amigos, não tinha o pai por perto. O velho dele, era um daqueles que decidiram lutar contra a tirania reinante, da forma como podia e tornou-se líder sindical quando isso não tinha nenhum glamour. A consequencia foi sua saída de casa. Mas o Pai era corajoso e logo deu um jeito de ver o menino...


Numa ação muito bem elaborada, uma vez por mês, um carro vinha até o bairro no menino, que ficava em frente ao mercado do seu Toyoda e então embarcava. Cada mês era um carro diferente. Esse tal carro o levava até o Estádio Palestra Itália, onde o Palmeiras com Dudu, Ademir Da Guia, Edu, Leivinha, César e Ney dava verdadeiros espetáculos de futebol. Alí, o menino encontrava o Pai. E para o menino tudo era a festa.


Por medidas de segurança, o Pai tinha que vir disfarçado, com um bigode, ou óculos, ou careca, ou cabeludo... O menino vibrava! Achava na candura de seus 5, 6 anos de idade que o pai era uma espécie de “Agente Secreto”, como aqueles que tinham no cinema. Era a forma que esse menino encontrava, para não pensar que no mês seguinte, poderia não ver mais o seu Pai. E o time de futebol ajudava...


Vendo então os passes de um louro, camisa 10, elegantissimo, o menino se encantava, tinha contato com a sua primeira forma de arte; Os passos daquele homem de camisa 10, era o o primeiro e mais belo dos balés da vida do menino. Tudo era alegria e então não tinha como o menino não amar aquele time. Primeiro porque o futebol deles era lindo; Segundo, porque era o único lugar onde permitiam que o menino, encontrasse seu pai. Durante 90 minutos, pai e filho tinham portanto o contato, a relação que conviccção politica, economica, social, sexual, religiosa nenhuma jamais poderia impedir! Os homens daquela época não entendiam isso. O tempo passou...


O menino cresceu e seu pai voltou para casa. Que alegria na vida do menino! O pai em casa, ensinou a ler os bons livros, ouvir os bons discos e beijar as mais belas bocas. Foi um período bom, abreviado por circunstancias que fogem ao desejo dos mortais. Em 1997, o pai do menino morreu. No dia, o rapaz que fôra menino, chorou muito. Após o enterro foi ao Palestra Itália e, vendo o seu time golear o Grémio por 5x0, sentiu um pouquinho menos triste. Chorou. Chorou num misto de alegria e tristeza mas, estava bem. O Palestra Itália era sua casa. O Palmeiras era muito mais que um clube de futebol.


Sabia que jamais acabaria esse amor entre ele e o clube de palestra itália. E assim foi no decorrer dos anos todos. Pelo Palmeiras o menino riu, chorou, xingou, amou, odiou, viveu a plenitude da existência portanto. Entendeu que isso faz parte não só do esporte mas da vida. E hoje é feliz.


Nas proximidades da chegada de mais um dia dos pais o menino-homem decidiu fuçar velhas gavetas em busca da memória do pai e então encontrou um ingresso do jogo PALMEIRAS x XV DE PIRACICABA pelo campeonato paulista de 1976. Ao lado, uma velha foto com o pai já amarelada do tempo e muita emoção. Sentindo o peito transbordando dessa mesma emoção, decidiu não ver os gols sofridos pelo time, no noticiário esportivo. Ligou o aparelho de som, ouviu Baby Huey cantar e falou alto, olhando para o ingresso e a foto:


Pai, eu te amo...

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